Ela chegava, todos os dias, com um vestido florido, mocassins, guarda-chuva, bolsa e uma florzinha cor de laranja na mão. Colocava o guarda-chuva em pé num cantinho da cozinha e a bolsa em cima da mesa. Me entregava a flor. Depois, trocava os mocassins por chinelos e o vestido florido por um vestido azul listrado de branco. E passava as tardes com a gente.

Ela contava sempre as mesmas piadas e nós sempre ríamos. Chamava meu avô de velho excomungado. Gostava de ganhar flores. Era carente e fazia um draaaaama! Mas fazia todo mundo ficar junto. Ela cozinhava terrivelmente mal. Sempre prendia minha franja com um grampo (“pra não ficar caolha com cabelo no olho”). Ou prendia meu cabelo todo num coque ou numa trança. Ah, como ela gostava do meu cabelo! Contava pra todo mundo que sua neta, a filha da Rosana, tinha o cabelo anelado, como ela tinha quando era mais nova. Ela tinha um orgulho inexplicável de mim. Me entendia, mesmo não concordando. Gostava de me ouvir falando das coisas que eu aprendia na escola. Sua voz era rouca e doce. E, quando a gente colocava uma música, ela cantava outra completamente diferente ao mesmo tempo.

Ela me deu o abraço mais gostoso do mundo antes de nos deixar. Mas até hoje, ela ralha comigo, prende meu cabelo e sai cantando com seu vestido florido nos meus pensamentos. E eu posso sempre encontrar um pouquinho dela em mim e na minha mãe.


P.S.: Os comentários deste e de outros posts mais antigos do blog foram perdidos, uma vez que eu usava o sistema de comentários do Haloscan, que deixou de existir há alguns anos.
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Um comentário sobre “

  1. Eu sabia que já tinha lido esse texto fofura antes!
    Não lembro o que eu comentei na época,mas deve ser algo parecido com o q vou escrever agora.

    Eu moro com a minha vó materna desde…sempre!
    Nossa,às vezes eu paro pra pensar e a minha vó tá presente em todos os momentos da minha vida. Mais presente até que a minha mãe.E olha que são 71 anos de diferença.
    Foi a minha vó que,indiretamente,me fez gostar de ler/escrever. Ela que me contou as primeiras estórias,me ensinou as orações do catecismo,me mimou (mima!) até não poder mais,ouvia meus diálogos solitários com minhas bonecas.
    Vovó é,literalmente, minha amiga mais velha.
    E eu fico pensando aqui no dia que ela for embora…God!Meu olho enche de água só de imaginar :´(
    Provavelmente vai ser a pior solidão do mundo.

    Dani,Dani,Dani…seus post me inspiram a desenterrar meu passado. Já sei onde vim quando faltar (ins)piração! \o/
    ;)

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