Educação Ambiental Não é Solução

Como muitos de vocês devem saber, eu curso Engenharia Ambiental. Estou no quarto período (segundo ano) agora. Desde muito antes de me decidir por esse curso, já me interessava pelas questões do meio ambiente e do manejo responsável dos recursos naturais. Vocês já devem ter notado alguns posts a respeito por aqui. Mas não é sobre isso (exatamente) que eu vim falar-lhes hoje.

Eu sei que o título é polêmico. Mas não fujam! Vou explicar melhor.

Logo no primeiro ano de faculdade, uma das minhas professoras disse algo que, no momento, me pareceu meio impensado, meio maluco e um tanto incoerente para uma bióloga. Algo do tipo “educação ambiental não vira nada”. Algum tempo depois, refletindo bem, acho que ela só formulou mal a frase.

Foi-se a época em que a ingenuidade e uma certa falta de conhecimento (ou visão) me faziam acreditar que a educação ambiental era a chave para a solução dos problemas ambientais ou o desenvolvimento sustentável. Há quem creia que ela seja suficiente. Há quem acredite que a conscientização das pessoas seja o suficiente para desencadear tudo aquilo que achamos fundamental para um ambiente sadio – correta exploração dos recursos naturais, emissão controlada de poluição, produção limpa, tratamento de resíduos, reciclagem, recuperação de áreas degradadas, preservação, etc. Porque acreditam que essas pessoas pressionariam governos e empresas a tomar uma atitude. Mas seria essa pressão eficiente? Às vezes, ela é, mas nem sempre. Além do mais, essa pressão pode não acarretar em medidas ecologicamente corretas, mas sim em uma suposta responsabilidade ambiental que, na prática, não existe. Já ouviram falar de greenwashing?

Cheguei a imaginar uma situação hipotética (e impossível) em que todos – sem exceção – estivessem conscientes. Ainda assim, acho que não seria suficiente. A consciência não garante uma mudança de comportamento. Quanta informação não temos aí, sendo veiculada? A mudança de comportamento é proporcional? É claro que não.

A educação ambiental tem grande importância, é claro. Mas não é e nunca será suficiente. O grau de alteração dos ambientes naturais é tão grande, e as relações homem-natureza são tão (cada vez mais) complexas que é um grande erro pensar em uma solução tão aparentemente simples. E é um erro ainda maior pensar que eu, pobre de mim, possa fazer uma grande diferença. Não posso. Quem detém o poder de promover mudanças significativas são, e sempre serão, os governos e as grandes empresas.

Vamos analisar um exemplo: o “lixo”. De que adianta eu separar o material reciclável do não-reciclável, se não há quem o recolha separadamente? De que adianta que alguém recolha o lixo reciclável se não houver uma central de triagem? De que adianta haver essa triagem se não há quem recicle os diferentes materiais separados? De que adianta reciclar dado material se não há quem o compre e use como matéria prima? Está aí: o governo precisa recolher o lixo reciclável, levá-lo para uma central de triagem, reciclá-lo. As empresas precisam comprar essa matéria-prima reciclada. É necessária uma infraestrutura gigantesca para que esse lixo seja reciclado, e que esse material seja reutilizado. É preciso investimento: em dinheiro, em mão de obra qualificada, em força de vontade!

E olha que nem falamos do resíduo não reciclável, da infraestrutura necessária para dispor esse tipo de material. Vocês não imaginam a dificuldade em se projetar um aterro sanitário digno, e do investimento para criá-lo e mantê-lo. (Nem eu, neste ponto do meu curso, tenho uma noção precisa da dimensão da coisa.) O que podemos fazer? Separar, reduzir, reutilizar, fazer uma composteira? Se todos fizéssemos isso o problema estaria resolvido? Claro que não. (Também não comentamos do lixo eletrônico, dos resíduos perigosos, do lixo que provém das fábricas, usinas, empresas, hospitais, prédios públicos, obras…)

Viu como o problema está fora do nosso alcance? Eu, como futura engenheira ambiental, me confesso frustradíssima com a minha impotência diante da deterioração do meio ambiente. E você ainda acredita que a educação ambiental é suficiente? Eu poderia dar outros exemplos aqui. Vários outros. Mas não acho necessário, creio ter explicado razoavelmente bem minha opinião. E creio que vocês vão entendê-la.

Não desacredito na educação ambiental. Ela é muito importante, é um complemento a todas as medidas que podem ser tomadas pelos detentores do poder. Voltemos ao nosso problema do “lixo”. Se houver toda a infraestrutura para triagem e reciclagem, é necessário que a população separe o lixo. Ainda mais, é importante que elas saibam o porquê de estarem fazendo isso. Também é fundamental que haja quem compre os produtos feitos com matéria-prima reciclada. Mas mesmo aqui, onde a educação ambiental é necessária, os detentores de poder têm grande importância. O governo deve incentivar e facilitar a separação do materia, como, por exemplo, ocorre nessas cidades em que há containers a cada um ou dois quarteirões, específicos para cada tipo de lixo. As empresas também podem reciclar suas próprias embalagens, dando aos consumidores a opção de devolvê-las após o uso, e até mesmo incentivando esse comportamento. E se precisamos de consumidores para os produtos feitos com matéria-prima reciclada, publicitários, geralmente, dão conta o recado. Eles têm talento nessa coisa de manufaturar a demanda.

Não quero por meio desse post, desincentivá-los a ter uma postura correta. PELAMORDEDEUS, não me levem a mal. Comportem-se bonitinhos, ok? A educação ambiental não é solução por si só, mas é importantíssima. Eu costumo dizer que tudo é válido, de alguma forma ou de outra, nem que seja para nos fazer bem, fazer-nos sentir útil, com o dever cumprido ou qualquer coisa assim. Até porque, muitas atitudes sustentáveis estão ligadas também a maior bem estar, melhor qualidade de vida e até economia de dinheiro. Vale a pena ser ecofriendly. Só gostaria de desmistificar a educação ambiental, trazer uma visão um pouco mais amadurecida da questão ambiental, um pouco da complexidade do problema. Novamente: a educação ambiental é uma parte muito importante da solução, mas sozinha, infelizmente, ela não dá conta do problema.

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6 comentários sobre “Educação Ambiental Não é Solução

  1. título polêmico, fato :)
    mas eu acredito TANTO no poder milagroso da educação, que eu vou ter que discordar da ideia em si. é claro que consciência não garante uma mudança de comportamento, mas já é um passo, ou, como eu costumo dizer, é melhor do que nada. mais do que desenvolver a consciência, a educação ambiental tem que gerar essa tal mudança de comportamento, e eu acredito que ela possa gerar – talvez seja um trabalho de formiguinha que demore 20 anos, ou que talvez a gente nem veja!
    eu não sou das pessoas mais ecologicamente corretas, mas tento fazer o que está ao meu alcance. eu acredito de verdade que o grande problema do meio ambiente, nem é causado pela população, mas sim pelas grandes indústrias, movido pelo capitalismo – e é aí que a educação entra: os futuros donos de industrias estão sendo educados hoje, se ensinarmos (me incluo, porque eu trabalho com educação) que é importante se preocupar com o planeta, não só com o lucro, mas ensinarmos a ponto desses alunos se importarem de verdade, aí as coisas vão começar a mudar.

    eu não posso nunca dizer que a educação não é a solução, porque eu VERDADEIRAMENTE acredito que a educação é a única solução : )
    apesar de não entender muuito bem a educação ambiental eu acredito nela também. meu namorado é militante e vive em função da educação ambiental. não é possível que não dê resultados!

    mas é aquele negocio de formiguinhas mesmo!
    ^^

  2. Aiii….chegou até a doer.
    Me parece que sua professora não sabe muita coisa sobre educação ambiental. Como Engenheira Ambiental, eu sou Tecnologo em Saneamento Ambiental, você não deve esperar do seus professores uma noção ampla de EA (ed. ambiental) e muito menos que eles saibam te explicar a diferença entre gestão ambiental e educação ambiental.
    Veja bem, se você fala de exploração racional de recursos vc se refere à práticas de gestão ambiental (coleta seletiva, reciclagem, minimização de impacto, desenvolvimento sustentavel, padrão de emissão de poluente e assim vai…) veja bem, são medidas que tem por objetivo gerir os problemas ambientais (muitas vezes com informação, o que não traz conscientizaçao) e não complexificar as situações de injustiça social e problemas ambientais urbanos e ou rurais.
    Já na educação ambiental, a situação se inverte…na minha opinião não faz muita diferença se vc joga seu lixo no chão ou na rua pois o ATO por sí só não significa nada. A educação ambiental tenta trazer ao sujeito (e essa palavra eh muito forte, pois nem todos somos sujeitos da nossa existencia, vide obras de Paulo Freire) a possibilidade de reflexão sobre a situação trazendo pro individuo a chance de posicionar-se conscientemente sobre uma determinada situação. Neste caso um exemplo seria, se você a partir do seu conhecimento refletido junto com sua realidade toma um posição perante a vida ou aos fatos políticos geralmente a EA esta feita.
    Tentei ser simples mas não sei se me fiz entender!

    Portanto, eu acredito que a EA faz sim diferença e muita, mas as coisas não podem ser entendidas como problemas isolados e nem ela é a solução única e verdadeira.

    Se você quiser trocar mais idéias e ver como JUNTOS FAZEMOS A DIFERENÇA procura na net ae http://www.rejuma.org.br, 500caipiras.net e no google pela lista de emails do Coletivo Jovem SP.

    TAMOJUNTO, pq sozinho ninguem vive! E aproveitando a deixa da formiguinha da minha Florzinha…..

    “pisa ligeiro, pisa ligeiro….quem não pode com as formigas não assanha o formigueiro!”

  3. Que coisa polêmica não? Quantos às empresas que você citou no meu blog, bom… realmente tem muitas que mascaram as suas reais atitudes com relação à isso e é difícil você perceber quando a empresa está sendo ecologicamente correta ou não, Dani. É quase impossível pra nós, consumidores, tentar escavar a fundo como aquele produto foi produzido. Então o que a gente faz? Tenta confiar. Eu sempre tive uma preocupação muito grande com o meio ambiente, mas veja bem, não sou nenhuma expert no assunto. Eu dou minha humilde opinião, dentro do meu “vago” conhecimento na área, mas eu acho que quando se trata do tema, já vale, uma vez que muitas pessoas nem se tocam sobre isso. Eu falo do que eu sei, eu tento conscientizar na forma que eu posso. Eu acredito, na verdade, que a conscientização nem sempre é alcançada. Conscientizar significar interferir nos valores de uma pessoa. Quando eu digo à alguém que não se pode jogar o lixo na rua, e ela volta a jogar, é possível que ela tenha somente absorvido a informação. Ou seja, eu não conseguir interferir na consciência daquele indivíduo com as minhas palavras. Nesse caso, é aí que eu acho que a Educação Ambiental faz a diferença. Repetir, informar e tentar passar a ideia da melhor forma possível, até que haja de fato, conscientização. Eu faço da forma como eu posso. Você, como estudante de engenharia ambiental, faz como pode. No fim das contas, a gente tenta por essa ideia na cabeça das pessoas, da forma que podemos, por que é a ÚNICA coisa que podemos fazer por elas. Não dá pra tomar uma atitude pelo outro. Ninguém força ninguém a fazer algo. No máximo, é educar e ir fazer a nossa parte, dando nosso exemplo! Até que outro também haja da mesma forma. Isso pode levar tempo, mas o pouco que eu sei hoje sobre sustentabilidade, foi com certeza devido à uma educação que foi passada através de algum meio.

    Sua opinião sempre será bem vinda no meu blog! Adorei, aliás, por que mostra que você realmente leu e se interessou pelo assunto.
    Um grande beijo, querida.
    Lanny :*

  4. Ai menina eu vou te dizer que eu fico desesperada com essas coisas de sustentabilidade global e problemas do mundo, porque realmente acredito que todas essas questões são tão complexas que no fim a gente vai ter que assistir o mundo acabando mesmo. Mas ainda espero que esse fim demore mto pra acontecer e que a gente encontre soluções antes disso.

    De qualquer forma, sigo fazendo meu trabalho de formiguinha sempre que possível.

    Beijos

  5. Olha,acho que entendi tudo que vc quis dizer.É que hoje em dia a mídia,as pessoas enfim tudo coloca a reciclagem,enfim,a educação ambiental como a única forma ou a única responsável para que o planeta entre em equilibrio,então apelam para essas campanhas ou idéias aparentemente sustentáveis,como por exemplo,a proibição de sacoas plásticas aqui em São Paulo,então todo esse trabalho é visto uma única salvação que na verdade não é.Ás vezes tenho a impressão que é como se quisessem responsabilizar apenas o povo tipo olha vc sujaram,agora vcs limpem ou arrumem o que não deixa de ser verdade,por outro lado,se fosse exposta a verdadeira realidade,a educação ambiental teria menos resultado ainda do que já tem.Eu como professora,sempre quando vou falar com as crianças á respeito das atitudes que devem ser tomadas,eles sempre querem saber porque,mesmo tendo entre 4 e 5 anos,acho que as pessoas também não sabem exatamente o porque de se fazer isso.

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