Menina do bico

Conheço a menina do bico desde que eu me entendo por gente. Temos quase a mesma idade. Salvo algumas diferenças, crescemos basicamente no mesmo contexto. Nossos pais são amigos e, por conta disso, vivemos nos esbarrando por aí desde muito cedo. Mas apesar disto tudo, e ainda de uma constante tentativa dos nossos pais de nos aproximarem, nunca nos tornamos amigas. (Inclusive, que chateação esta coisa de forçar amizade entre crianças/adolescentes só porque suas idades são próximas!)

Fui uma criança bem mais expansiva do que sou hoje, adulta. Principalmente quando era bem pequena, eu tinha muita facilidade para fazer amigos. Mas com ela, a menina do bico, nunca rolava. Daí, eu ouvia muitos sermões sempre que nos encontrávamos. Meus pais se chateavam e brigavam comigo por não incluí-la nas brincadeiras e conversas e, quando eu argumentava que tinha tentado, eu sempre ouvia que eu não me esforçava o suficiente.

Mais tarde, na adolescência, quase não nos víamos mais. Nossos pais permaneceram amigos, mas ela quase nunca estava com eles, então nossos encontros eram raros e rápidos. Geralmente trocávamos apenas um “oi”, quando ela estava com os pais ou o irmão. Quando estava sozinha, ela simplesmente me ignorava. Eu imaginava que aquilo tudo fosse por conta da minha timidez, da minha falta de jeito para puxar conversa, ou talvez por eu não ter me tornado amiga dela na infância ou ainda por não termos mais nada em comum.

Só que daí veio este negócio de rede social e eu passei a segui-la no Twitter a no Facebook. Foi acompanhando suas muitas atualizações que descobri que, pelo contrário, temos muito em comum, a começar por este negócio de viver na internet. Somos palhaças com nossos melhores amigos, ainda que tímidas com estranhos; adoramos escrever e quase tudo tem um pouco de ironia e sarcasmo; levamos a sério nossa educação e a colocamos como prioridade, o que muita gente não entende e critica; e curtimos até mesmo as mesmas bandas, os mesmos filmes e os mesmos livros. Afinidade definitivamente não era um problema e foi aí que decidi tentar interagir. Comentei, curti, RT e, na primeira oportunidade cara a cara, tentei iniciar e manter um diálogo.

Saímos eu e meus pais, ela e a família dela. Como eu já disse, não sou boa de puxar papo e isto sempre me deixa bastante desconfortável, mas eu tentei, à minha maneira, interagir com ela. Eu comentava os assuntos da mesa, perguntando sua opinião e ela era grunhia. Eu puxava assunto sobre coisas que eu sabia que tínhamos em comum e ela era monossilábica. Eu tentava seguir com a conversa, mas ela já tinha voltado os olhos para seu coquetel ou a tela do celular, onde ela conversava com uma amiga que, veja só, é uma das pessoas mais simpáticas e falantes que já conheci. Por mais que a simpatia exacerbada desta amiga tenha me irritado muitas vezes nas aulas de matemática, prefiro alguém assim à moça do bico, que é praticamente um zumbi e cuja únicas frases completas eram repletas de mal humor e dirigidas somente à família dela.

Por fim, voltei para a casa com um misto de incômodo, raiva e frustração. Logo passou. A culpa não era minha, nunca foi. Todo aquele sentimento que vinha desde a infância acabou. Afinal, eu já deveria ter percebido: minha timidez nunca foi impedimento para que eu fizesse amizades. Eu não era a menina mais popular da escola, mas me relacionava com as outras pessoas. Aprendi a superar a timidez em nome da boa educação. E, naquela noite, superei minha timidez e falta de vontade com ela pelo meu pai, que gosta tanto do amigo. Mas ela, me parece, se acha muito superior, muito importante, muito inteligente para interagir com as outras pessoas. Por mais que ela saiba que aquela pessoa – no caso, eu – tem tanto a ver com ela, mais talvez do que sua melhor amiga tagarela. Não entendo o que leva alguém a ter tanta má vontade, a fazer tanto descaso, a ser tão mal educada. Talvez o problema seja comigo e com a minha família. Mas tenho sérias suspeitas de que o problema é a própria menina do bico.


PS: Agora, finalizando esse texto, logo depois de dar os retoques finais no post sobre o livro da Martha Medeiros, me lembrei de uma crônica em especial, Os Ausentes, que fala de gente assim como a menina do bico.
“… acho um desrespeito quando uma pessoa faz questão de demonstrar que não compactua com a ocasião. São os casos daqueles que se emburram em torno de uma mesa de jantar e não fazem a menor questão de serem agradáveis. Pode ser num restaurante ou mesmo na casa de alguém: estão todos confraternizando, menos a ‘vítima’, que parece ter sido carregada para lá à força. Às vezes, foi mesmo. (…) Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. (…) Esteja! Se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. Melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada.”
– Martha Medeiros
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18 comentários sobre “Menina do bico

  1. Dani! Super te entendo…
    No meu caso, minha mãe e a minha tia (irmã dela). Minha tinha tem 2 filhos, uma 1 ano mais velha que eu e um filho 1 ano mais novo que eu…
    Eles sempre moraram perto de nós e desde pequenos frequentávamos a cada de um e outro.
    Meu primo sempre me desprezou, armava situações para eu ficar na pior, mentia… E é claro a mãe dele ficava do lado dele. Meus pais e outros tios na maioria das vezes viam ele me tratando assim e fazendo essas coisas, mas é claro que minha tia o super protegeu É A DUDA QUE NAO PRESTA!
    Na adolescência ele espalhou coisas muito graves ao meu respeito… uma vez no ano novo com a minha casa cheia de parentes, mesmo sabendo de todas essas coisas… puxei assunto. Ele me deixou falando sozinha.
    E aí desisti de vez… sempre tentei ser legal ele que sempre se comportou como um babaca! Poderíamos ter uma amizade bacana, ainda mais entre primos… mas como ele se acha o bom, o superior é claro que ele nunca vai admitir que o problema na história é ele. E sabe o que é pior? É que a mãe dele até hoje joga na cara da minha mãe essas coisas que aconteciam… coisas de 20, 15, 10 anos atrás.

    Essa menina aí não merece a sua amizade, você tentou… Deixei ela pra lá… nem todo mundo tem o bom senso de ao menos ser legal. Paciência ne?

    :*

  2. Achei que no final do texto você diria que acabaram ficando amigas, mas ops! A menina é chata mesmo. Dizem que quando “o santo não bate” nem adianta forçar. Se por um acaso você tivesse conseguido passar pela barreira antissocial dela, durante a relação teria descoberto que no fundo ela é bem diferente de você. Que a amizade havia demorado tanto pra chegar porque as duas não combinam e que afinal de contas seria melhor nunca ter forçado contato com ela. Vai saber!

    Vocês podem se parecer na personalidade, mas acho que ela deixa a desejar no caráter. Sendo assim, ponto pra você :)

  3. Que tenso isso… Eu não tenho muita paciência não, já teria começado a odiar essa menina há muito tempo! hauahuahuahuah
    Já tentei ser amiga de várias pessoas que simplesmente me ignoraram, então não tem mais o que fazer. Amizades são sempre boas, se a pessoa está tão bem assim pra negar uma, aí já não é problema meu!
    hauhauahuah
    Beijinhos

  4. Sabe que vivi uma situação parecida?
    A menina era amiga de amigos meus, muitos gostos em comum e tudo mais. Nunca conseguia falar com ela. No início achei que a culpa era minha, porque minhas habilidades sociais realmente não são das melhores, mas a verdade é que ela é uma chata. =P

    Sobre o trecho do final, já fui uma dessas emburradas, e eu ficava triste por não estar sendo simpática com todo mundo, mas dependendo da situação, não conseguia me sentir confortável. Depois de um tempo, os amigos entenderam, e agora só apareço quando estou com vontade e consigo ser agradável com as pessoas.

  5. Adorei o texto!

    Interessante a situação, eu geralmente não sou muito boa para iniciar a conversa (ok, sou péssima) e muita gente já me disse que pareço antipática de início. Mas isso se deve principalmente em minha timidez em ter uma primeira conversa com alguém q eu não conheço. Mas quando a pessoa vem até mim, ou quando tenho iniciativa de ir até ela, me esforço para ser agradável e simpática. Acho que isso faz parte da vida, afinal você não vai viver para sempre com as mesmas pessoas. Que pena q outras pessoas ñ percebam isso, não é?

    Mais uma vez, otimo post!
    =*

  6. Eu já tive o desprazer de encontrar com algumas pessoas assim, mas nenhuma com quem eu tive que encontrar de vez em quando.. imagino que a situação deve ser horrível pra você já que tentar falar com ela é em vão e se ignorar completamente também vai causar um desconforto para seus pais e os pais dela. Mas eu acho que seria isso que eu faria, ignoraria ela também! Se você já tentou tanto e ela fica nesse mundinho dela, o que mais se pode fazer?! Eu concordo com esse trecho da Martha Medeiros que você citou, quando a gente vai a algum lugar temos que pelo menos nos esforçar pra interagir.

    Beijo :*

  7. Me identifiquei com o seu post por estar do outro lado da mesa (rs), ou seja, ser a menina do bico. Imagine uma família completamente desestruturada (pai e mãe que não se casaram por amor mas pela circunstância), estranha mesmo (uma mãe estressada que reclamava de tudo que fosse tarefa doméstica e de um pai absolutamente ausente, que substitui carinho por presentes), do tipo que fala mal pelas costas mas pela frente finge ser o que não é? Nada mais justo do que demonstrar para os outros que eu era o resultado de tudo isto. Não gostava de ser arrastada para eventos familiares e como nunca tiveram nada de interessante para me oferecer, preferi os livros, por exemplo.
    Foi uma fase, passou… O mundo adulto me fez amadurecer mas não me arrependo de nada…
    Talvez esta garota seja muito mais autêntica do que você possa imaginar…

  8. Poxa, Duda… O seu caso é mais tenso. A menina do bico me ignorava, pelo menos. O maior dano que ela me causou já foi solucionado no episódio descrito no post. Ficou claro para todos que eu me esforço e ela não. Deixei de ser a culpada pela falta de um relacionamento que nunca irá existir.
    De fato, desisti dela. Talvez não tenha desistido antes porque não queria carregar a culpa. Agora, tudo está resolvido.

  9. Eu não costumo me esforçar, não. Acho que amizade se faz espontaneamente. Mesmo aquelas que são difíceis no começo. Com as minhas melhores amigas, foi assim. Nos conhecemos e levamos um tempo para ficarmos amigas, mas foi natural. Só me esforçava para interagir com a menina do bico porque ela é filha de um amigo do meu pai, os dois se gostam muito e a gente sempre iria se encontrar. Mas não consegui. Pelo menos, hoje, acho que todos (meus pais, os pais dela…) já perceberam que eu me esforço, mas não acontece. Agora, posso ignorá-la à vontade.

  10. Acho que quase todo mundo tem uma pessoa de bico na sua vida, né?

    Eu também já fui emburrada, acho que todos nós já tivemos um momento assim. Principalmente na infância e adolescência, que nem sempre podemos optar por não ir a algum lugar. Hoje, eu mudei. Bem melhor assim. Segui o conselho da Martha antes mesmo de ler o livro. (:

  11. Também sou assim, culpa da timidez. Me esforço quando necessário. Não sou de puxar conversa, mas tento ser sempre o mais educada e simpática que conseguir. Faz parte da vida mesmo, relacionar-se com as pessoas é fundamental. E até faz bem, viu? Hehehehe.

  12. Hoje, eu acho que posso ignorá-la sem grandes prejuízos. No último encontro, o que descrevi no post, acredito que todos tenham percebido o meu esforço. Pelo menos, o meu pai percebeu. E olha que ele é bem exigente comigo e o meu comportamento, dificilmente ganho um elogio.

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