Não, não salve o planeta

Hoje é Dia da Terra. Muita gente – incluindo eu – não saberia disso não fosse pelo doodle do Google ou pelas publicações de fanpages de grandes empresas no Facebook. Nessas oportunidades (dias da Terra, da água, do meio ambiente, etc.), várias empresas aproveitam seus espaços na Internet (e, algumas vezes, na TV) para veicular mensagens de suposta conscientização ambiental, apoiadas em clichês como “salve o planeta”, “recicle” e “feche a torneira enquanto escova os dentes”. Me incomoda muito ver empresas que notadamente não têm nenhum programa ambiental considerável fazerem esse tipo de discurso. Não passa de greenwashing. A preocupação com o meio ambiente, em geral, não faz parte da agenda da empresa, que só quer que seu departamento de marketing passe a melhor imagem possível, mesmo que ela não corresponda à realidade.

Greenwashing, além de falta de respeito com o consumidor (porque engana ou subestima nossa inteligência), é bastante problemático porque, muitas vezes, ajuda a disceminar informações equivocadas. Dizem que uma mentira dita muitas vezes se torna “verdade”. É assim com algumas “verdades universais” tais como o primeiro clichê citado nesse texto, o tal do “salve o planeta”. No dia da Terra, o que mais tenho visto é essa frase compartilhada pelos quatro cantos da Internet como se fosse grande coisa, como se resumisse toda a problemática ambiental.

Não, não é por aí. Esse conceito está completamente errado. Não é o planeta que deve ser salvo ou protegido. É a espécie humana (e não raça, a propósito) que está em risco, é a vida como conhecemos hoje, são os ecossistemas. Os riscos ao que o planeta Terra está sujeito estão fora da nossa alçada, nada podemos fazer com relação a eles. (Pelo menos, não por enquanto.) Quando falamos em meio ambiente, não falamos do planeta, falamos de parte dele.

Nossa noção de meio ambiente também é muito equivocada e isso se deve também, em parte, ao greenwashing. Sempre que se fala em meio ambiente, usa-se verde, imagens de plantas, florestas, rios e lagos. Assim, nossa noção é de que é algo distante de nós, da nossa realidade, principalmente se vivemos na área urbana. Nos esquecemos de que nossas cidades também são parte do meio ambiente e que, principalmente, nós também estamos incluídos. Não somos meros espectadores, somos parte do processo, impactamos e sofremos estes mesmos impactos.

Tratar das questões ambientais não quer dizer, de forma alguma, “salvar o planeta”. É mais complexo do que isso, tem a ver com a nossa qualidade de vida e o não encurtamento da nossa existência. Pode parecer pessimismo, mas precisamos encarar que a espécie humana, bem como outras espécies, poderá ser extinta em algum momento e nossos impactos podem ser tão grandes a ponto de acelerar esse processo.

Por isso, as questões ambientais não podem ser tratadas com tanto desprezo e falta de informação.  O greenwashing deve ser combatido e o assunto deve ser abordado por quem entende dele. Conscientizar, sim, mas conscientizar de verdade. Educação ambiental, sim, mas sem se valer de clichês fora da realidade e sem disseminar ideias tortas.


A foto do topo deste post é o skyline da cidade de São Paulo visto do edifício Copan e foi tirada pelo fotógrafo Fernando Stankuns.

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2 comentários sobre “Não, não salve o planeta

  1. Tudo o que eu sempre pensei!
    É mesmo isso de que as pessoas acham que estarão fazendo um favor ao planeta ou aos ursos polares, mas estamos falando de qualidade de vida (adorei, nunca tinha parado para pensar que era isso), de, em uma escala menor, ter água para beber.

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