Fat talk

Americanos dão nome a tudo. Eu, pessoalmente, acho inglês uma língua super bacana e quase sempre acho que certas expressões soam melhor em inglês do que em português ou qualquer outro idioma. Mas não é esse o assunto do post de hoje, claro. Vim falar sobre uma expressão que conheci recentemente e que já fiquei gostando.

Fat talk é falar sobre gordura, peso, dieta e aparência física. Não só falar, mas falar compulsivamente, obsessivamente. É claro que o termo só surgiu porque é algo que tem se tornado muito comum. Acho que nunca falamos tanto sobre esse assunto, até porque nunca tivemos tantas pessoas com sobrepeso ou mesmo com algum grau de obesidade. Mas, além disso, temos a velha questão da mídia, dos padrões de beleza e dos estereótipos.

Não é de hoje que são impostos padrões. Quem nunca viu pinturas renascentistas retratando mulheres “cheinhas” ou anúncios do início do século passado de pílulas que prometiam ganho de peso? Basta comparar Marilyn Monroe com Gisele Bundchen, ambas representantes do ideal de beleza em suas épocas. Mas essa questão não é somente temporal. Ainda hoje, temos culturas com padrões de beleza diferentes. Na Mauritânia, por exemplo, o padrão é ser (muito) gorda.

Sempre que se fala sobre essas mulheres (da Mauritânia), que fazem das tripas coração para ganhar peso, colocando sua saúde em risco, nós nos sentimos muito confortáveis em sentar sobre nossos próprios rabos e apontar o dedo. Mas nosso padrão de beleza é tão prejudicial quanto o padrão das mauritanas. Se elas têm problema com obesidade, nós temos a anorexia e a bulimia. Se elas põem suas vidas em risco ao tomar remédios e apelar para métodos malucos, nós fazemos a mesmíssima coisa. No final das contas, gente, toda imposição de padrão de beleza é ruim. Porque a beleza é subjetiva. Se ela varia de cultura para cultura e ao longo do tempo, ela também varia de pessoa para pessoa.

Não sou pessimista. Ao mesmo tempo em que vejo um crescimento do fat talk, também vejo meninas aprendendo a lidar com e aceitar seus corpos. Também vejo novos padrões surgindo na mídia e aumentando o leque de possibilidades: você pode não ter o corpo de uma modelo, mas pode ter o corpo de uma panicat, ou de uma modelo plus size. Além disso, temos as blogueiras, que são meninas lindas e o melhor: gente como a gente, de todos os tamanhos e com todas as peculiaridades e, muitas vezes, sem Photoshop.

De forma alguma, eu acho ruim falar sobre emagrecimento se isto está atrelado à saúde e bem estar. Eu mesma tenho tentado diminuir o sedentarismo e melhorar minha alimentação. Confesso que a parte da razão é estética, mas é mais uma questão de autoestima do que de não aceitação.

Durante minha adolescência, tive muitos problemas para aceitar meu corpo. Típico, eu sei. Eu era (muito) magra e a maioria das minhas amigas eram mais gordinhas. Elas tinham peito e bunda, e eu? Bem, eu era uma tábua. Naquela época, passei por várias fases e problemas de autoestima variados. A pior delas, na minha opinião, foi a fase da calça jeans. Durante mais de um ano, eu só usei calça jeans. Só a trocava pelo pijama na hora do dormir. O motivo? Eu morria de vergonha das minhas pernas finas e decidi que ninguém as veria. Foram meses sem shorts, saias e vestidos.

Hoje, eu me aceito. Claro que eu queria ter um corpo mais feminino, ombros menos largos e mais quadril. Minha vida seria mais fácil se minha gordura se acumulasse na bunda e não na barriga. Mas não é possível, então tudo bem. Aprendi a olhar no espelho e não procurar pelos defeitos, mas pelas qualidades. Descobri que tenho mais delas do que imaginava. Algumas precisam ser aperfeiçoadas e é para isso (também) que existem os exercícios e a alimentação balanceada.

Quando percebi que o fat talk estava invadindo minha vida, parei para pensar. Essa não sou eu. Eu não falo sobre chia, eu falo sobre Chico. Continuo me preocupando com a minha alimentação e trocando uma ideia sobre isso com as pessoas, mas não quero que isso se torne uma compulsão.

Até porque, gente, compulsão deixa a gente ansioso e ansiedade engorda.

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