Pai

Hoje, o texto não é meu. Peço licença para citar uma crônica inteira da Martha Medeiros.

“Você tem certeza de que seu pai é mesmo seu pai? Vocês podem ter a mesma cor de olhos, mas será que possuem a mesma maneira de ver o mundo? Vocês podem ter o mesmo jeito de andar, mas será que escolheriam os mesmos caminhos? Faça um texto de DNA agora. O meu método é rápido, não precisa colher sangue e é de graça. No final desse texto você já saberá o resultado.
Se você é baixinho e seu pai é alto, se você é obeso e seu pai é jóquei, se você é gremista e seu pai não sabe o que é um tiro de meta, acalme-se: ainda há grande chance de você não ter sido inseminado pelo carteiro. Há outras maneiras de averiguar uma paternidade.
Um dia você disse para seu pai que queria trancar a faculdade e viajar pelo mundo com uma mochila nas costas, sem data para voltar. Tudo o que você pedia é que ele avalizasse moral e financeiramente esta ideia estupenda, mas olha o que ele disse: ‘Foi exatamente o que eu fiz na sua idade, só que naquela época eu já trabalhava e consegui patrocinar eu mesmo essa ideia estupenda. Você só estuda de manhã. Faça alguma coisa rentável nas suas tardes e daqui a um ano a gente volta a conversar sobre isso’. Cara, esse é o seu pai, mesmo que ele seja nissei e você, alemão.
Um dia você disse para seu pai que gostaria de trazer o namorado para dormir em casa, e ele sugeriu que você o trouxesse para jantar, já que ninguém o conhecia. Aí você discursou durante uma hora sobre a caretice da família, sobre como ninguém confiava nas suas escolhas e como aos 17 anos uma mulher já sabe o que quer. Ao final do discurso, seu pai, comovido, disse: ‘Qual é o nome desse homem imperdível?’. Você, odiando o sarcasmo dele, respondeu: ‘Kiko’. Seu pai: ‘Vulgarmente conhecido como o quê? Roberto, Afonso, Jerônimo?’. ‘Kiko, pai, só sei que é Kiko, que importância tem um nome?’ Foi a vez do seu pai discursar uma hora sobre responsabilidade, autoestima e camisinha, e concluiu o discurso pedindo que o Kiko arranjasse um nome e uma noite livre para jantar. Esse aí é seu pai sem sombra de dúvida, mesmo você tendo um nariz arrebitado e ele sendo o Cyrano de Bergerac.
Se seu pai consegue ser carinhoso, parceiro e aberto, e ao mesmo tempo atento e disciplinador, pode ser branco e você negro, pode ser peludo e você imberbe, pode ser engenheiro e você bailarino: é seu pai. Nem precisa perguntar pra sua mãe.”

– DNA, Martha Medeiros

Coincidentemente, nasceu outra Daniela no mesmo dia que eu e no mesmo hospital. Acredito que os horários também foram próximos. Até hoje, meu pai brinca que fomos trocadas. Sempre que encontramos o pai da tal Daniela, meu pai diz “ali seu pai, ó!”. Quando li essa crônica da Martha Medeiros, não pude deixar de lembrar disso.

Sinto muito, pai, mas fiz o teste de DNA da Martha e deu positivo. (:

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