Outro Bicho de Sete Cabeças

A adolescência é a fase do drama, né? Nessa idade, tudo parece imenso, catastrófico ou maravilhoso. Esse exagero todo faz com que pensemos que a adolescência é dificílima de ser superada e alimenta o drama do “ninguém me entende”. Eu já defendi muito, em blogs antigos, que os adultos (especialmente pais e professores) deveriam ter mais paciência com os adolescentes, compreender as complicações da fase pela qual eles estão passando e tentar se recordar de suas próprias dificuldades e assim, quem sabe, ser mais empáticos. Hoje, com minha adolescência próxima o suficiente para que eu resgate memórias com boa dose de exatidão, percebo que não é beeeeem assim. Sim, sigo achando que os adultos deveriam olhar mais para seus respectivos passados ao lidar com gente mais jovem, afinal, mesmo com muitas diferenças, eles passaram por situações semelhantes. Mas, hoje, vejo que a adolescência não é um bicho de sete cabeças. Pode ser assustador passar pela puberdade e vislumbrar o mundo adulto cada vez mais de perto, mas isso é apenas o começo. A adolescência é uma preparação para o que vem por aí: ser adulto, especialmente no começo, não é mole, não.

Pode ser que minha geração realmente estenda a adolescência até os 30 anos, como já li por aí, e que eu ainda esteja vendo as coisas de maneira dramática e exagerada, ou ainda que veja meus problemas de hoje como piores simplesmente por esta-los vivendo nesse momento, mas sei que não é algo exclusivo meu. A maioria dos meus amigos, colegas e conhecidos na mesma faixa etária está passando pela mesma coisa, tanto é que esse texto não é inspirado somente nas minhas experiências, mas nas deles também.Ser um jovem adulto é tão assustador quanto puberdade e vestibular, e não temos a adolescência para justificar nossos erros e atos de rebeldia. Não importa se você só entrou na brincadeira agora e mal conhece as regras do jogo, todos esperam de você uma postura adulta e responsável. As escolhas continuam nos assombrando. Sim, decidir-se por um curso que supostamente vai definir o resto da sua vida (spoiler alert: não) aos dezessete anos é complicado, mas aos vinte, as questões ficam ainda mais capciosas: se a escolha tiver sido acertada, a universidade sempre vai nos apresentar dezenas de oportunidades e escolhas a serem feitas, isso somente durante a graduação. Se a escolha não foi a melhor, a confusão é ainda maior e pode culminar na mesma decisão da adolescência, agora com a pressão de estarmos mais velhos e já termos desistido de um caminho escolhido anteriormente.

Acreditamos, quando adolescentes, que um diploma na mão resolve tudo. Não mesmo. O que fazer depois de formados? Pós-graduação? Trabalhar? Que área seguir? Que tal um ano sabático? E o dinheiro? Aliás, o dinheiro é uma preocupação constante. Depender dos pais já adultos pode ser bastante incômodo, tanto para eles, quanto para nós. Há quem já comece a ganhar uma graninha na faculdade, mas também há quem nunca gerou um centavo por conta própria e se sinta mortificado por isso (oi, eu).

Sair da casa dos pais é sempre um desafio e é bem comum virarmos nômades nesta fase da vida. Mora aqui, mora ali, mora sozinho, mora com Fulano, mora com um bando de gente… Tudo bastante complicado. Morar com gente desconhecida deve ser o caos, principalmente se você for como eu – que, felizmente, nunca tive que dividir apartamento com ninguém. Morar sozinho, por outro lado, também é cheio de complicações (que conheço bem!): cozinhar pra um é uma merda; faxinar e organizar tudo sozinho dá trabalho pra caramba e a solidão bate, mesmo pra quem gosta de ficar sozinho. Fazem falta a geladeira sempre cheia e as roupas e a casa que se limpam “sozinhos”.

Aquela liberdade que nos prometiam aos dezoito anos não existe. Muitas vezes, continuamos reféns das regras dos pais, que têm dificuldade em compreender que agora somos adultos, principalmente se ainda dependemos deles e/ou vivemos sob o mesmo teto. Mais do que isso: estamos sujeitos às leis, aos professores, ao patrão e à falta de tempo e de dinheiro.

Além disso, como eu já disse, cobra-se de nós uma postura adulta e responsável com a qual não estamos acostumados. Mas essa não é a única cobrança. Cada um vai nos pressionar num sentido (ou em vários) e é melhor se acostumar: seu professor quer que você faça um mestrado, sua mãe quer netos, suas primas te perguntam do casamento (mesmo que você não tenha nem um/a namorado/a), e seu pai quer saber do primeiro salário (tudo hipotético e generalizadíssimo, por favor). E existe, ainda, aquela “obrigação” de se ter muita energia, sair todas as noites, ter uma vida sexual maravilhosa, assistir a todos os filmes e seriados, ler dezenas de livros, ser bonito e saudável e ter seu futuro todo planejado, afinal, você é jovem.

(E, se você for mulher, as cobranças são, no mínimo, dobradas.)


 

Crédito da foto do topo: Gregor Morrill

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6 comentários sobre “Outro Bicho de Sete Cabeças

  1. Quando eu era adolescente, nunca me preocupei com o futuro. Tudo já estava devidamente programado pela minha cabecinha ingênua. Terminaria a faculdade, viajaria o mundo, seria mãe solteira e ganharia muito dinheiro. Era esse o meu “plano de vida”. Que bobinha ^^ Achava que a vida poderia ser perfeita. Só que o mundo dá muitas voltas e agora, mais madura, já não vejo graça nos antigos planos. Não terminei minha faculdade, não conheço nenhum outro país, não quero ser mãe solteira (♥) e tô procurando dois reais na minha carteira e não acho. Esse negócio de depender dos meus pais é uma coisa que me incomoda profundamente. Apesar de trabalhar desde os 19, nunca saí de casa e, também por isso, eles me tratam como uma menina de 13 anos. Estou há 4 meses de fazer 24 anos e minha mãe ainda fica emburrada quando passo minhas férias com meu namorado em São Paulo. (Alôu, mainha, tua filha cresceu.) Hoje eu tenho consciência de que sou adulta, que a vida agora é minha, não dos meus pais, e que eu preciso me virar. Por mais que eles sejam corujas, eu mostro independência, para que eles não sofram tanto quando “eu não for mais deles”. E quanto aos outros, bom, como diz meu namorado: “Eu não estou apostando corrida com ninguém. Vou viver tudo ao meu tempo.”

    =)

  2. Eu não sei se é porque “quando passa parece que foi fácil”, mas acho que minhas crises da adolescência não chegam aos pés dessa maldita fase de início da vida adulta. Meu Deus que idade complicada. Na adolescência temos dúvidas, mas de algo que ainda está longe. Agora o “longe” chegou e a gente continua cheia de dúvidas! Realmente tenho a sensação de que nossa geração só vai virar gente aos 30, porque meus amigos de 20 e poucos tão tudo no mesmo barco que eu, e meus pais com 20 e poucos já tinham a vida resolvida e me tinham no colo. Ó Céus..

  3. É engraçado mesmo como aos 17 anos a gente “tem certeza” do que quer, planeja mil e uma coisas e, aos 20, tudo já mudou. Mais engraçado ainda é perceber que não, não estamos sozinhas nesse barco prestes a naufragar, porque somos muitos recém saídos da casa dos “teen” que agora se deparam com questões cada vez mais difíceis a serem resolvidas.

    Como sempre, seu texto e meus pensamentos tem um timing perfeito, haha. Tenho pensado muito nos últimos dias sobre o que fazer depois de formada, pra onde ir, que área seguir e, como você também disse, o que mais me apavora é o fato de eu não conseguir me manter financeiramente, já que eu descartei completamente a hipótese de continuar pedindo dilmas pro meu pai depois de formada.

    É esse tipo de coisa que me faz olhar pro meu eu adolescente (e pra minha prima de 15 anos) e mandar um: ôw, na boa? você ainda não viu nada!

  4. Fui uma adolescente babaca e só hoje percebo isso. Não é arrependimento nem nada do tipo (fiz o que fiz e adorei, fim.), mas acredito que se eu tivesse sido um pouco mais consciente durante a faculdade, tudo seria diferente hoje. Essa é a visão de uma dessas desencantadas com a vida adulta? Com certeza.

    Concordo contigo de que essa entrada na idade adulta é bem complicada. Na verdade, acredito que cada fase tenha suas dificuldades particulares. Na adolescência é o corpo, o reconhecimento social e as relações com os pares. Na idade adulta o tema muda, vira ser alguém produtivo, realizado ou que pelo menos caminhe para isso.

    É o que o mundo cobra das pessoas: tenha sucesso e seja feliz. Grande bosta, isso sim.

  5. Eu sempre fui superpreocupada com tudo (e ainda sou). Escolher curso, como ganhar dinheiro, namorar ou não… Super tenso. Agora, faltando um ano para o fim da faculdade, estou bem na crise do que fazer depois. hoje tenho a impressão que meus problemas de adolescente eram super simples porque o que tem vindo pela frente é mil vezes pior!
    Beijos

    Reenoceronte

  6. muito bom, dani!

    eu tenho sentido um pouco disso. eu sofri bastante na adolescência, mas acho que foi mais porque eu sentia muita necessidade de me afirmar perante os meus amigos, meus pais, família como um todo. daí todo mundo se sentia no direito de apontar que as minhas escolhas não estavam sendo as melhores. realmente, os adultos parecem não tem paciência com os adolescentes!

    hoje eu sinto que as coisas estão mais na minha mão, e que sou eu quem decido – de verdade, e acho que está aí a dificuldade. quando eu era adolescente, eu queria ser independente, hoje, que a independência chegou, ela vem cheia de cobranças.

    mas quem eu fui na adolescência, e as escolhas que eu fiz moldaram o que eu sou hoje e isso foi determinante!

    o que a gente precisa é aprender que cada fase tem suas coisas boas, suas coisas ruins, e que a gente tem que aproveitar tudo, da melhor forma possível, porque assim a gente se prepara pra próxima fase, que como num jogo, é sempre mais difícil (:

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