Sobre a mulherada sem maquiagem na sua timeline

Você provavelmente deve ter visto mais fotos de meninas sem maquiagem na sua timeline do que de costume nos últimos dias. Talvez você tenha, inclusive, postado você mesma uma foto assim, porque alguém te “desafiou”. Eu espero, sinceramente, que você tenha usado a hashtag #stopthebeautymadness e entendido o propósito do convite. Se não, tudo bem, mas acho que seria legal conversarmos.

Tudo começou como parte da campanha Stop The Beauty Madness (pare a loucura da beleza, em tradução livre), que visa conscientizar as pessoas, em especial as mulheres, sobre os perigos da busca obsessiva por um padrão de beleza irreal. Ao contrário do que acreditam algumas pessoas, nem essa campanha, nem o feminismo julga a mulher que faz loucuras para tentar atingir esse padrão. Tanto a campanha quanto as feministas querem ajudar as mulheres, todas elas, a se sentirem bem consigo mesmas, a amarem seu corpo, a recuperarem sua autoestima e a se livrarem da escravidão que a cultura da beleza nos impõe.

Convidar as meninas para postarem fotos sem maquiagem tinha muitos propósitos (e nenhum deles tinha a ver com competição ou apostas). Estamos acostumadas a ver cada vez menos caras lavadas e cada vez mais mulheres maquiadas e, no caso das fotos, photoshopadas também. O que a gente vê não é real, mas começamos a acreditar, mesmo inconscientemente, que sim, que aquilo é que é natural, que aquilo é que é bonito. Por mais que saibamos que aquilo pode ser maquiagem, photoshop, plástica ou qualquer coisa do gênero, nosso cérebro se acostuma com aquelas imagens. Por isso, precisamos ver mais naturalidade, precisamos nos reacostumar com a realidade. Isso é importante para voltarmos a enxergar beleza de outra maneira, da nossa maneira. Quanto mais meninas postavam fotos sem maquiagem, mais meninas eram incentivadas a fazer o mesmo e isso estava criando um movimento lindo até que… Estragaram tudo.

Não sei em que ponto a coisa desandou, mas de repente, minha timeline estava repleta de mulheres desafiando umas às outras a postarem foto sem maquiagem como se isso fosse um castigo. De repente, minha timeline estava cheia de indiretas debochadas sobre os “defeitos” das “amigas”. De repente, virou piada e até homens entraram na brincadeira, desmerecendo a campanha e debochando das meninas que consideravam feias sem maquiagem. Antes de mais nada, eu me pergunto: cadê a empatia? E no caso das mulheres: cadê a sororidade?

Fomos educadas para sermos inimigas umas das outras. Quantas vezes você não escutou que não existe amizade verdadeira entre mulheres, enquanto existe entre homens? Isso não é natural. Se as mulheres são competitivas entre si, é porque elas foram condicionadas a serem assim. Da mesma forma como o nosso olhar foi condicionado a ver beleza apenas naquilo que se encaixa em determinados padrões e nossa falta de empatia (um mal da nossa época) e vocação para o bullying faz com que determinadas pessoas se sintam no direito de ofender quem elas não consideram bonitas.

Isso tudo, bem como a quantidade infinita de legendas “se desculpando” pelos “defeitos” ostentados nas selfies de cara limpa, só reforçou, para mim, a necessidade de se falar sobre esse assunto aqui. A princípio, eu não queria escrever. “Já tem gente demais falando sobre isso”, pensei. Mas, depois de tudo isso, achei necessário.

Veja bem, ninguém está dizendo que você não pode se maquiar, se depilar ou alisar o cabelo. O que estamos dizendo é que uma pessoa, qualquer pessoa, deveria fazer qualquer coisa porque quer, não porque está sendo forçada. Queremos que as pessoas tenham consciência do porquê têm determinados comportamentos e se isso é saudável. Não tem problema se cuidar, se amar, querer se sentir bem, mas é importante refletir se o que a gente faz é por amor próprio ou pressão externa. Você alisa seu cabelo porque gosta dele liso ou por que sempre sofreu preconceito com ele natural? Você não sai de casa sem base porque gosta de se maquiar ou por que as pessoas debocham das suas sardas? Você gosta mesmo de todo o ritual de beleza que cumpre religiosamente toda noite ou o faz simplesmente por que acha que deve fazer? O que queremos, para todas nós, é mais liberdade. Quero sair maquiada porque eu gosto de me maquiar, não porque vão julgar as marcas de espinhas antigas. Quero alisar o cabelo porque estou a fim de variar o visual, não porque vão chamar meu cabelo de ruim. Quero me depilar porque gosto da sensação da pele lisinha, não porque vão dizer que meus pelos são anti-higiênicos.

Eu sei que esse post já está imenso, mas eu ainda tenho algo a acrescentar: minha história. Uma das coisas que eu mais gostei sobre o Rotaroots ter sugerido essa blogagem coletiva é que as pessoas estão não apenas discutindo esse assunto, mas dando seus depoimentos. É através deles que entendemos a importância disso tudo e praticamos a empatia.

Toda mulher sofre, algumas mais ou menos, as consequências da ditadura da beleza. E essa é só parte da minha história.

Dia desses, falando sobre esse assunto com meu namorado, ele comentou “que bom que você é desencanada com essas coisas”. Sabe de nada, inocente. Eu posso parecer muito bem comigo mesma quando saio por aí sem maquiagem mesmo com espinhas, marcas e olheiras. Posso parecer muito bem comigo mesma quando saio por aí com os cabelos bagunçados, volumosos e naturais (que eu acho lindos, muito obrigada). Posso parecer muito bem comigo mesma quando saio de short mesmo que tenha pernas finas, muito brancas e muito manchadas. Mas não estou muito bem comigo mesma. Na maioria das vezes, eu não estou nem mesmo bem comigo mesma. Porque eu posso ter conseguido aceitar tudo isso – mesmo que às vezes eu tenha que ouvir piadas “inofensivas” e notar olhares tortos – mas eu ainda uso blusas largas e calcinhas modeladoras para diminuir minha barriga. Isso me consome. Me consome não ter o corpo que eu queria, me consome não poder usar as roupas que gosto e me consome, principalmente, dizer para as pessoas que elas precisam se aceitar, sendo que eu mesma não me aceito completamente. Sinto-me uma feminista incompleta até me lembrar que ninguém é perfeito e que isso, justamente isso, deve servir para que eu reforce esse discurso e tente não só ajudar às outras mulheres, mas também a mim mesma. Porque eu também estou em processo de libertação e de auto-aceitação, então me dá aqui sua mão, amiga, que temos muito o que caminhar juntas.


Esse post é um oferecimento do Rotaroots, grupo de blogueiros saudosistas que tentamos resgatar o melhor da blogosfera de raiz.

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7 comentários sobre “Sobre a mulherada sem maquiagem na sua timeline

  1. Sou “desencanada” mas o sofrimento é inevitável mas, ver que “azamigas” não são tão bonitas sem um kg de maquiagem me fez ver, que eu não estou TÃO sozinha e que me aceito muito melhor que a maioria…

  2. Muito bem Dani, arrasou nas palavras como sempre. Eu mesma não havia entendido ainda a proposta do desafio, achava que era só pra “competir” mesmo, ver quem tinha coragem de postar, porque as mulheres da minha TL não colocaram a tag. Elas também não entenderam a proposta.
    Não fiz e agora também não pretendo, apesar de reconhecer a importância do tema. Como você, sou desencanada também, e confesso que quando me arrumo mais é por causa dos outros e não por mim, pois por mim eu to legal com a cara branca e manchada, to de boa com a perna peluda. Enfim…
    Parabéns pelo texto!

  3. Dani, achei tão válido o seu depoimento! Acho muito importante reforçar que ninguém é inferior só porque ainda não se libertou dessas amarras dos padrões de beleza. Acho que isso só mostra o quanto isso é forte e opressor, porque atinge gravemente não só quem nunca se informou sobre o assunto, mas também quem tem plena noção de onde surgem esses conceitos, consegue desconstruí-los, mas mesmo assim ainda não venceu a batalha de combatê-los internamente. Essa honestidade é super importante, porque percebo que muitas meninas se sentem um degrau abaixo das outras por ainda se sentirem afetadas por esses padrões, ou recusam o rótulo de feministas porque não se acham “liberadas” o suficiente pra eles.
    A empatia é preciso dentro desse círculo também. Temos que nos dar as mãos e vencer essa juntas. <3
    A Noelle escreveu um post ótimo sobre o assunto. Se você não leu ainda, vale muito: http://cheznoelle.com/2014/08/13/sinceramente/

    beijos!

  4. Mas olha, até fiz um post sobre essa questão da campanha – que considero muito interessante. Mas também vi a competição desenfreada e ridícula nas timelines da vida. O propósito se perdeu com muita facilidade. Aprendemos a competição da estética, fomos educadas assim. E, para a maioria, sair disso sem ser vencedora ou perdedora é uma batalha maior ainda.
    Quem me dera ser mais alheia a tudo isso.
    Beijão.

  5. Dani, que texto LINDO! Amei muito, principalmente esse final. Todas temos muito o que aprender a caminhar ainda. E não acredito nessa questão de ser mais ou menos feminista não. Todos temos nossos degraus na escada e vamos aprendendo devagar a subir! Beijo beijo!

  6. Comigo seria “um dia com maquiagem” porque é muito difícil usar, mas com certeza não sou desencanada dessas coisas. Gostei da proposta pela discussão que ela pode atingir, muito além do simples desafio.
    Lindíssimo post, Dani.

  7. Nossa, seu texto é perfeito. Notei esse comportamento por parte das meninas, que se viam “castigadas” por ter que botar uma foto sem maquiagem, e muita gente buscava uma foto bem desfocada só pra “escapar” da pressão. Vi também homens postando piadinhas, dizendo pra pararem de postar fotos sem maquiagem. Não sei se essas pessoas sabiam do motivo da campanha. Uma pena que ela tenha se distorcido ao viralizar.

    Em tempo, isso me lembrou um comentário que ouvi de um homem, como indireta pra uma colega de trabalho, dizendo: “se eu fosse mulher, não sairia de casa sem maquiagem nem pra levar o lixo pra fora”. Algum tempo depois essa moça foi trabalhar maquiada, e no dia seguinte, foi de ~cara lavada~. Ela teve que ouvir “vc estava bonita ontem… Estar é diferente de ser”. =/

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