Você pode ser você mesmo

Quando você nasceu, que alegria, um garotão para jogar futebol com o pai. Vamos comprar uma bola, vamos pintar a parede de azul. Quando eu nasci, que alegria, uma menininha para ajudar a mãe com as tarefas de casa. Vamos comprar vestidinhos, vamos pintar a parede de cor de rosa. Você era o garotão, eu era a princesinha. Você sempre foi ÃO e eu, sempre inha.

Meus brinquedos coloridos e educativos, minhas ferramentas de borracha e blocos de montar foram aos poucos substituídos por brinquedos cor de rosa, bonecas e panelinhas. Você ganhava carrinhos e lego. Quando você desmontava um brinquedo, “que bonitinho, é curioso, vai ser engenheiro”. Quando eu fazia o mesmo, “que feia, menina curiosa, quebrou, por que não vai brincar de casinha?”. As brincadeiras que diziam que me cabiam não me permitiam muita criatividade. Meninas brincam de ser adultas, mães e donas de casa. Na melhor das hipóteses, éramos princesas, delicadas e passivas, esperando ser salvas. Você podia ser o que quisesse, não havia limites. Você podia voar e salvar o mundo aos 7 anos. Eu era olhada com desaprovação quando fazia um dinossauro atacar a casa da Barbie, ou brincava de deixar a boneca na creche enquanto trabalhava como espiã.

A você nunca foram ensinadas tarefas domésticas. Eu subia em um banquinho para alcançar a pia e ganhava vassourinhas de brinquedo. Você ganhava espadas de plástico e lutava contra dragões. Eu era repreendida por ficar suja e descabelada, por correr e falar alto, por sentar de perna aberta e fazer perguntas demais. Você não. Você era questionado quando ficava calado ou quando preferia uma atividade mais calma. Quando você dizia palavrões, seu pai ria. Meu primeiro palavrão quase me rendeu um tapa na boca.

Nas reuniões familiares, você brincava e se divertia. Eu tinha que pôr a mesa. Quando era pequeninha, aceitavam minha presença na “rodinha masculina”. “Ela gosta do pai”, diziam. “Toda menina é apegada ao pai”, completavam. Com o passar dos anos, minha presença na sala (“dos homens”) começou a incomodar e sempre me mandavam para a cozinha (“das mulheres”). Te perguntavam o que você ia ser quando crescer. Me perguntavam com que idade eu queria me casar e quantos filhos eu pretendia ter.

Quando comecei a namorar, acharam cedo, recriminaram os beijos em público e me disseram para não fazer sexo de jeito nenhum. Me lembraram que eu deveria me casar virgem. Ou ao menos “me guardar” para o “cara certo”. Quando você começou a namorar, perguntaram se você usava camisinha e te alertaram para não engravidar a namorada e estragar a sua vida. Te incentivam a ficar com as meninas sem compromisso, a “curtir a vida” e a casar o mais tarde possível (ou nem se casar). Comigo, sempre foi o oposto. Me dizem para só ficar com alguém se quiser um relacionamento sério, para não ser “rodada” para não ficar “falada” e ainda me mandam me apressar, casar logo, “tá faltando homem no mercado”, “vai ficar para titia”, “você não quer ter filhos com mais de 40 anos”. Te compraram uma Playboy na sua adolescência. Me disseram que masturbação era coisa de menino. Me impediram de usar anticoncepcional antes de eu fazer 18 anos.

Na escola, estranhavam meu jeito pra matemática e diziam que eu tinha um cérebro masculino. Nunca me sugeriram estudar exatas e, quando eu dizia que tinha escolhido engenharia, uma das primeiras coisas que me diziam era que eu seria a única menina da sala. Você sempre foi incentivado a escolher o que bem entendesse e ninguém duvidou de que você passaria no vestibular. Mesmo sendo uma das melhores alunas da sala, nunca confiaram completamente que eu passaria. Pelo menos não no curso que escolhi. Ainda hoje, sou aterrorizada por gente que diz que o mercado de trabalho vai me massacrar e que eu terei que “trabalhar como um homem” se quiser me dar bem na área que escolhi. Novamente, ninguém duvida da sua capacidade.

Às vezes, já no portão, volto para casa para trocar o short por uma calça, mesmo fazendo 40°C, para evitar ouvir obscenidades na rua. Nunca funciona. Você só tem que se preocupar se está frio ou calor, eu tenho que me preocupar se vão me respeitar. Você tem medo de ser assaltado quando anda à noite na rua. Eu ando sobressaltada o tempo todo e tenho medo de ser estuprada a qualquer momento. Você aprendeu que as mulheres servem para te servir. Eu aprendi que os homens servem para me subjugar.

Você fala de sexo numa boa. Eu sou sempre julgada. Te perguntam sobre sua carreira. Me perguntam se eu sei cozinhar. Você é perguntado se quer se casar e se quer ter filhos. Eu sou perguntada quando. Questionam como vou dar conta de trabalhar “para fora” e cuidar da casa e dos filhos. Se você lava a louça ou diz que pretende buscar seu filho na escola no futuro, você se torna um deus. Eu sou pressionada a parecer com as moças das revistas. Ninguém se importa com a sua barriga saliente. Eu tenho que ser uma super mulher. Você pode ser você mesmo.

Anúncios

12 comentários sobre “Você pode ser você mesmo

  1. Pense numa coisa que não é fácil: ser mulher. Mas hoje em dia temos essa noção de onde estão pisando nos nossos calos. E antes, no tempo de nossas avós, onde nem elas mesmas tinham noção de que estavam sendo subjugadas e que aquilo não era o que era pra ser?

    Eu não sou uma super feminista, você não vai me ver publicando sobre isso todos os dias, mas faço questão de ganhar minha pequenas batalhas diariamente: cortar o bofe, quando ele vem com algum comentário machista; mostrar que eu não preciso pensar 'que nem homem' pra ser boa no meu trabalho; ficar de pernas pro ar quando chego em casa e pedir pro bofe fazer o jantar. Acho que é por aí. Não é fácil, mas vamos em frente.

    Beijinhos!

  2. Dani, amei! Sem dúvida um dos melhores textos! Coeso, claro, bem escrito, e o principal, realista, por mais que essa seja a pior parte, saber que tudo isso é verdade, sim existe essa diferenciação comportamental entre o que é ser mulher e o ser homem.
    ;)

  3. Demais o texto! Parece que as pessoas sempre têm uma receita de bolo pra vida dos outros. Todo mundo já tem um papel e tem que seguir à risca. Adorei!

  4. Dani, obrigada por colocar (maravilhosamente) em palavras a nossa luta diária para tentar reduzir esse abismo entre os gêneros. Ontem mesmo estava comentando com um amigo sobre como somos estimuladas, desde cedo, a competir entre nós mesmas, ao apontar os defeitos umas das outras, enfim, sobre como a sociedade machista nos ensina direitinho a martelar os pregos na nossa própria cama. Também sou de exatas, mais especificamente de TI, que também é uma área predominantemente masculina. Durante a faculdade, já ouvi diversos comentários de teor machista, alguns mais levinhos e que não me afetavam tanto, mas também já sofri assédio pesado de colegas de turma e ouvi comentários explícitos sobre aparência e minha TPM.
    Infelizmente, não somos as únicas, e o prospecto de viver ouvindo esse tipo de coisa é o que desencoraja muitas pessoas como nós a seguir uma carreira para esse bando das ciências exatas e tecnologia. Até mesmo os testes de QI tradicionais valorizam essa “inteligência masculina”, a racionalidade, a “lógica”, enquanto as mulheres são vistas como seres irracionais e impulsivos que não tem o menor controle sobre as próprias emoções. Frustrante :(

    beijos e vamos na luta!

  5. Excelente post, Dani!
    É realmente impressionante, de um jeito bem ruim, como o mundo sempre foi cheio de dois pesos e duas medidas em se tratando de homens e mulheres. E você só falou de coisas absolutamente ordinárias, porque se entrar nos particulares aí é que a coisa desanda. Quero mandar esse texto pra todo mundo que diz que a militância feminista é exagerada e histérica já que as mulheres já são donas do mundo e de seus direitos.

    São sim, cara. Vai nessa.
    Não passarão.
    beijos!

  6. Perfeito seu texto, Dani. Ele mostra tão claro esse machismo que as pessoas insistem em falar que não existe. Foi fácil me identificar com praticamente tudo o que você escreveu.
    O engraçado é que, lendo seu texto, lembrei de uma conversa que tive sobre como os valores ensinados aos meninos são completamente diferentes, e incoerentes, aos ensinados as meninas!
    Beijo

  7. Tive que compartilhar esse text no facebook. Você escreveu ele de uma maneira tão perfeita e tudo é tão verdade… Impossível não se identificar com tudo isso. Principalmente a parte do “você brincava e se divertia. Eu tinha que por a mesa”. Até hoje eu sofro com isso na casa da minha avó, mas eu bato o pé. Se o meu irmão não faz, eu também não tenho obrigação de fazer. Que a nossa geração que parece ser mais proativa em relação a essas coisas, ensine os nossos filhos que homem e mulher são exatamente OS MESMOS – a diferença fica apenas na genitália.

    Sério. Parabéns. Um dos melhores textos que eu li.

  8. Dani, parabéns pelo texto, gostei muito e sendo mulher é impossível não se identificar.

    Eu trabalho em uma empresa onde sou a única mulher estagiária. Pro cargo que ocupo tenho alguns privilégios, devido ao meu esforço e iniciativa, porém certos colegas machistas insistem em atribuir meus privilégios exclusivamente ao fato de ser mulher. E ainda tem gente que fala que machismo é coisa de feminista exagerada.

    Beijo! Bom final de semana =)

  9. Um tempo atrás li um texto parecido, mas era escrito sob o ponto de vista de um homem que percebia como a irmã era tratada diferente. Gostei do texto na época e também gostei do seu, mas achei um pouco injusto. Infelizmente, passei por praticamente tudo que foi citado, muitas vezes me senti humilhada ou negligenciada em algumas dessas situações. No entanto, acredito que os homens também sofram com o machismo, com repressão de sua sexualidade, imposição de padrões e estilo de vida. Imagino que isso seja muito menos agressivo para a maioria deles, mas talvez meu ponto de vista seja suspeito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s