Dos comportamentos da gente

Descobri uma coisa curiosa sobre mim recentemente. Se fico nervosa numa situação (tipo, muito nervosa, mais do que eu deveria) e estou sozinha (tipo, só eu estou irritada), minha tendência é ficar cada vez pior. Porém, se outra(s) pessoa(s) fica(m) nervosa(s) também, minha tendência é ficar cada vez mais calma quanto mais irritada(s) aquela(s) pessoa(s) fica(m). Não sei bem o porquê disso, mas talvez vocês me ajudem a pensar nos motivos. (Prometo que diminuo o número de parênteses no próximo parágrafo se vocês comentarem.)

Aconteceu isso esses dias. Lu e eu estávamos indo pra São Joaquim na sexta-feira de carnaval. Foi um erro de principiante nosso que, depois de cinco/seis anos viajando de ônibus quase toda semana, não poderíamos cometer mais. Pegar ônibus em (véspera de) feriado é pedir para dar merda e passar raiva. Portanto, ou se evita, ou se vai preparado psicologicamente para enfrentar filas gigantes, atrasos, lugares lotados, gente mal educada e toda a sorte de chateações. Bem, Lu e eu não nos preparamos – embora sempre role aquelada respirada funda antes de viajar porque, mesmo nos dias mais calmos, o serviço é péssimo.

Quando chegamos na rodoviária de Ribeirão Preto, já tivemos uma prévia do que nos esperava. A viagem de São Carlos para lá foi tranquila, mas de lá para São Joaquim definitivamente não seria. A fila da Viação São Bento (sempre que puderem, evitem essa viação, pelamordadeusa) era a maior do lugar, que nunca esteve tão lotado (pelo menos, não nas muitas vezes em que estive lá nos últimos anos). Lu ficou quase meia hora na fila, tendo que ver gente mal educada fura-la o tempo todo, enquanto os atendentes – que já são grosseiros em dias de pouco movimento – distribuíam patadas a absolutamente todos os passageiros. Enquanto isso, eu procurava um lugar para sentar e esperar o horário do nosso ônibus, já que teríamos cerca de um hora de espera na rodoviária. Não encontrei dois lugares livres para que eu e Lu nos sentássemos. Desisti das cadeiras por algum tempo e fiquei em pé observando as mesinhas para ver se alguém iria sair, quando uma mulher olha para mim e grita “nem vem, fia, não saio dessa mesa nem morta”. Poxa, que pena, eu estava mesmo planejando te arrastar pelos cabelos para roubar sua mesa.

(Um parênteses: segundo a Socicam, empresa que administra a rodoviária Ribeirão Preto, a estimativa era que 88 mil pessoas passassem por lá entre a sexta-feira (13/2) e a quarta-feira de cinzas. Um dos destinos mais procurados é Uberaba/MG. O ônibus que pegamos para São Joaquim da Barra é justamente o que vai para Uberaba.)

Pois bem, meia hora depois, passagens compradas e lugares encontrados ao lado de um senhor que estava tão bêbado que empesteava com cheiro de álcool um raio de 3 metros, além de não saber em que cidade estava, descobri que minha passagem tinha sido preenchida errado. Consertei o erro à mão mesmo – já me preparando para discutir com o motorista por causa disso – porque seria impossível chegar no balcão da São Bento novamente e, depois de 10 minutos, desistimos de ficar sentados ali e decidimos esperar pelo ônibus na plataforma, onde havia, ao menos, circulação de ar. Fomos. Lembro de dizer pro Lu que tudo bem ficar em pé porque só faltavam 20 minutos para o ônibus. My mistake.

(Outro parênteses: entre tantas pessoas grosseiras com quem tive o desprazer de dividir a rodoviária naquele dia, surgiu uma moça extremamente gentil que respondia com atenção às perguntas do senhor bêbado, inclusive ajudando-o a contar o dinheiro que tinha nos bolsos para tentar comprar uma passagem. Por melhor pessoa que eu tente ser e por mais que aquele homem tenha me lembrado do meu próprio avô, confesso que eu não teria paciência para ajuda-lo.)

Assistimos a plataforma lotar e nada do ônibus chegar. Fomos empurrados pelas pessoas que procuravam um lugar na sombra – onde estávamos porque chegamos mais cedo – e por outras que provavelmente sofrem daquela doença rara que as impedem de usar expressões como “com licença” e “obrigado”. (Aliás, rara nada porque o que mais encontro são pessoas sofrendo desse mal. Deve ser contagioso.)

Nem preciso dizer que, nesse ponto, eu já estava absolutamente nervosa, com taquicardia e respiração acelerada, zerando meus níveis de empatia, xingando a todos mentalmente e tentando não transparecer o estresse porque, afinal, tinha sido ideia do Lu viajar naquele horário e eu não queria que ele se sentisse culpado. Viajar de ônibus envolve muitas coisas que odeio normalmente, como lugares lotados, ar condicionado, atrasos e falta de educação. Em dias movimentados como aquele, todas essas variáveis ficam absolutamente piores (menos o ar condicionado), então eu acho até normal que eu fique tão nervosa. Normal, mas nada saudável.

Quando deu a hora do ônibus e nada dele aparecer, começaram as reclamações. Conforme os minutos passavam, ele ficava cada vez mais atrasado e víamos ônibus de outros horários e outras empresas chegando e partindo na hora certa ou minimamente atrasados, os protestos aumentavam. Conforme as pessoas faziam perguntas sobre o atraso aos motoristas e funcionários da São Bento que, ora eram minimamente polidos e respondiam, ora eram grosseiros e simplesmente ignoravam as pessoas ou respondiam com grunhidos ininteligíveis, o nervosismo passava a reinar e o clima ficava pesado. Se a empatia quase não existe no dia a dia, nessas situações, ela vai para o vinagre. Dois passageiros, ex-presidiários (um deles, segundo ele mesmo, foi preso por decapitar um homem), ameaçavam os motoristas. As pessoas iam perdendo a compostura e passavam a tratar os funcionários da São Bento no mesmo nível de grosseria com que somos tratados todo dia. Palavrões que nem eu mesma digo passaram a sair da boca das tias mais simpáticas e educadinhas. Para mim, o auge foi quando meu namorado, a pessoa mais calma desse mundo, brigou com o motorista. Nesse momento, minha gente, eu era a pessoa mais calma daquela rodoviária. Quanto mais nervosas as pessoas ficavam, mais eu me acalmava. No final, mesmo estando numa situação que provavelmente me daria crises de ansiedade, eu não poderia estar mais… de boa! Acalmei o namorado, liguei pro meu pai avisando que atrasaria 40 minutos e passei o resto da viagem olhando pela janela tranquilona, enquanto ouvia as histórias da cadeia dos nossos vizinhos de poltrona. O moço que foi preso por decapitar um homem dividia cela com outro que foi preso por matar a mulher. Tranquilinho. Quem nunca, né?

(Último parênteses: juro para vocês que eu tento praticar a empatia e faço esse exercício diário de me despir dos meus preconceitos. Tem muita gente boa trabalhando na São Bento. Não duvido. Inclusive já fui atendida por funcionários muito gentis ou, ao menos, educados. Entretanto, viajo quase todo final de semana e conheço bem alguns deles que sempre trataram tanto a mim quanto aos outros passageiros muito mal. Procuro compreender como deve ser foda trabalhar para uma empresa dessas que, se não têm respeito pelos clientes, imagine só pelos funcionários. Mas quando você leva patada toda sexta-feira sem razão nenhuma pelo mesmo cara ogro, fica difícil, amigos. Com relação aos ex-presidiários, sempre me sinto mal falando sobre o assunto pois entendo tão pouco sobre ele. Novamente, tento praticar a empatia e lembrar que nem todo (ex-)presidiário é bandido e que bandido é gente. Não tenho preconceito com os caras do ônibus simplesmente por eles terem saído da cadeia recentemente (ou tento não ter). Mas é inevitável ter medo quando o cara sentado a três poltronas de você fala com naturalidade sobre como o colega de cela dele assassinou a própria esposa a facadas.)

Crédito da imagem do topo: Ryan McGuire

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