Organização, empatia e respeito

Falamos muito sobre como nos organizar é bom pra nós mesmos, sobre como isso é uma forma de usarmos melhor nossos tempo e espaço, sermos mais produtivos, atingirmos nossos objetivos e termos mais bem estar. O que não falta nessa Internet são posts e matérias sobre como nos organizar é benéfico para nós mesmos e sobre como, por conta disto, deveríamos focar nossos esforços na organização. Eu concordo com muitos desses textos e só não escrevi uma lista do gênero porque acho que tudo (ou quase tudo) que eu diria já foi dito em algum lugar. Portanto, hoje o assunto não é esse. (Se você procura um post sobre o assunto, entretanto, indico esse aqui.)

Não é novidade para ninguém que somos, em geral, pessoas egocêntricas e egoístas. E ao meu ver, o fato de haver tantos textos sobre como a organização é benéfica para nós mesmos se compararmos com a quantidade de posts e matérias sobre como se organizar é também benéfico para as outras pessoas é um reflexo disso. Muitas vezes, não pensamos em como nossas atitudes afetam os outros. Falta empatia. Falta até mesmo um olhar um pouco mais amplo, além do nosso próprio umbigo. O texto de hoje, entretanto, não é sobre nosso egocentrismo ou nossa falta de empatia, embora eu ache que sejam assuntos muito relevantes. O texto de hoje é uma reflexão e um convite a pensarmos em como a forma como nos organizamos afeta as pessoas ao nosso redor.

Vamos começar com a constatação mais óbvia e um dos clichês mais conhecidos da história da humanidade: nenhum homem é uma ilha. Não sei quem disse isso (e não pretendo googlar porque não quero interromper a escrita desse post), mas tenho certeza que você já ouviu essa frase e sabe o que ela significa. Você, meu amigo, não está isolado do mundo. Nenhum de nós está. Mesmo o cara que vive solitário no meio duma floresta na puta que pariu há centenas de quilômetros de qualquer outro ser humano têm uma relação com outras pessoas. É impossível que não tenha. Ele pode ficar anos sem ver, falar e interagir com outro humano, mas ele certamente conheceu gente antes de se isolar e essas pessoas o mudaram e o influenciaram. Ele nasceu de alguém e aprendeu grande parte do que sabe com outras pessoas. Ele carrega todas elas consigo de certa forma. Além disso, é provável que ele tenha deixado gente que o conhecia para trás e que isso afete essas pessoas, negativamente ou não, muito ou pouco. Nem que seja aquele vizinho que hoje pense “nossa, ainda bem que aquele maluco foi embora daqui”. Portanto, nem ele, nem nenhum ser humano está livre de se relacionar com outras pessoas e todas nossas atitudes e comportamentos afetam em algum nível e de alguma forma algum número de pessoas. Isso inclui a forma como nos organizamos.

Acho que a forma mais simples e fácil de visualizar como isso acontece é em termos físicos, digamos assim. Se você é uma pessoa organizada e convive com alguém bagunceiro sabe do que estou falando. Não é um saco que o sapato de c e r t a s pessoas esteja sempre no meio do caminho e você sempre tropece neles ou tenha que coloca-los no lugar certo? Seus sapatos, que estão fora do caminho, dificilmente vão fazer diferença na vida do seu roommate desorganizado, mas os dele vão te incomodar em algum nível. Você pode tropeçar, cair e se machucar; gastar o seu tempo para deslocar aquilo para o lugar correto ou simplesmente ficar irritado. Enfim, há várias possibilidades e isso vai depender de inúmeros fatores, mas a questão é que a bagunça de um sempre afeta o outro. Ou outros. Isso mesmo se o(s) outro(s) também for(rem) bagunceiro(s), sabe? Uma coisa é perder tempo procurando as suas chaves porque você não lembra onde as colocou e outra diferente é perder tempo procurando as suas chaves porque você não lembra onde as colocou e alguém jogou a bolsa por cima.

Além disso, as pessoas podem ser desorganizadas de maneiras diferentes. Pode ser que sua bagunça afete menos os outros porque você procura mantê-la no seu quarto e se policia para ser mais organizado nas áreas comuns da casa. Aliás, acho que esse é um ótimo começo se você quer ser mais organizado em termos espaciais. Assim, você vai aprendendo e criando o hábito ao mesmo tempo em que se torna um habitante mais agradável, não é mesmo? Além disso, se você vive com alguém mais organizado do que você, pode aprender com essa pessoa. Ou mesmo, se vive com alguém desorganizado, vocês podem aprender juntos.

Para mim, entretanto, o mais importante não é tanto a questão espacial, da bagunça física, etc. O meu maior problema é com o tempo. Acredito que essa seja a principal questão para a maioria das pessoas porque reclamamos cada vez mais que não temos tempo. Não que ele tenha mudado, os dias continuam tendo 24 horas, mas hoje demoramos mais para nos deslocar, temos mais responsabilidades e muito mais acesso a informações e opções de lazer. Temos muito o que fazer e queremos fazer ainda mais. Se organizar entra aí como uma forma de fazer o tempo “render”, já que é impossível estendê-lo. Mas, como eu disse, o homem não é uma ilha e, muitas vezes, não importa o quanto você se organizou e se planejou, inclusive pensando e se programando para vários tipos de imprevistos, se alguém falhar com você – se atrasar, cancelar, esquecer algo importante, não fazer sua parte, etc – isso pode ferrar com toda sua organização e planejamento. Aposto que já aconteceu com você.

Li uma vez que chegar no horário era uma questão de respeito. Eu não poderia concordar mais. Tenho a impressão de que vivemos numa sociedade em que o atraso é considerado normal e aceitável. Aliás, é considerado bacana. Quem chega no horário marcado é visto como trouxa, “certinho”, aquele que não tem nada melhor para fazer e por isso consegue chegar na hora. Quem está atrasado é visto como descolado, aquele que não se prende a essas bobagens ou aquele que tem muito o que fazer (e ser ocupado é considerado o máximo) e por isso não pode chegar na hora. Eu vejo isso de uma maneira completamente diferente. Em geral, quem chega com antecedência ou no horário correto me parece organizado e responsável. O atrasado sempre me soa como aquele que força a barra para parecer cool e “sempre na correria” ou aquele que é simplesmente desorganizado, desleixado e não tem o mínimo respeito pelo tempo alheio. Eu sou chata? Talvez, mas não é isso mesmo? Quando você se atrasa passa a mensagem de que seu tempo é mais importante do que o dos outros ou que aquele compromisso que você teve antes era mais relevante. Já reparou como (quase) todo mundo acha ok se atrasar mas detesta ficar esperando?

Portanto, acho, sim, que chegar no horário é uma questão de respeito. As outras pessoas também têm seus horários, responsabilidades, compromissos e coisas a fazer. Um atraso seu simplesmente porque você não fez questão de se organizar pode prejudicar o outro, às vezes, de maneira que a gente nem imagina. Gente, pelamordadeusa, mais empatia, né? Quando seu compromisso envolve outras pessoas – e quase sempre envolve – pense nelas e se organize para conseguir chegar no horário. E, se atrasar – porque merdas acontecem – avise. Todo mundo fica pendurado no telefone o dia todo, mas não se digna em enviar uma mensagem avisando que vai chegar um pouco mais tarde do que o combinado. Aí não dá, né, mores?

É claro que isso se estende para outras áreas, mas acredito que o atraso seja o mais presente na vida de todos nós. Mas, só para pensarmos juntos, vamos considerar a coisa de cancelar um compromisso ou, pior: dar o famosíssimo bolo. Cancelar um compromisso é ok, gente. Às vezes, não dá mesmo. Mas vamos nos organizar para conseguir cumprir com aquilo que nos comprometemos em fazer, né? A coisa não se chama compromisso à toa. E, se não der certo, vamos, no mínimo, entrar em contato com a(s) pessoa(s) envolvida(s) o quanto antes e avisar que não vai dar, para que ela(s) consiga(m) se reorganizar? Ah, um pedido de desculpas e uma justificativa também não fazem mal a ninguém. Ser gentil não arranca pedaço.

Quando você cancela um compromisso já é chato porque isso mexeu com a agenda e o planejamento das outras pessoas. Mas muito pior é quando você simplesmente não aparece porque isso tem consequências muito maiores. Porque aquela pessoa se deslocou até o local combinado, gastou tempo e, muitas vezes, dinheiro para isso e ficou te esperando, muitas vezes com cara de tacho, pagando mico, etc. Ninguém gosta de levar bolo, então não dê, gente. Não seja essa pessoa.

Não sei se consegui me fazer clara nesse texto, mas gostaria que vocês lessem com carinho. Principalmente você, amigo desorganizado. É ok ter dificuldade para se organizar. É ok ter uma baguncinha aqui e ali, atrasar uma vez ou outra, esquecer alguma coisa, mas é uma merda quando fazemos disso um hábito, algo constante na nossa vida. Primeiro, porque, como eu disse lá no começo, isso afeta a nós mesmos. Mas também afeta aos outros, gente. Vamos pensar um pouco mais no outro? Vamos ser mais empáticos? Vamos nos organizar não só por nós mesmos mas também para nos tornarmos pessoas melhores? Juro que não custa quase nada, não dói, nem arranca pedaço.

A Thais, do Vida Organizada, escreveu um post ótimo sobre esse assunto. Nele, ela dá dicas de como organizar-se para respeitar o próximo e cobre várias outras situações que eu não citei aqui. Vale demais a leitura.


Crédito da foto do topo: Ed Gregory

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3 comentários sobre “Organização, empatia e respeito

  1. Oi Dani! eu não poderia concordar mais com as suas palavras!
    Meu maior problema de organização está, com certeza, no tempo. Principalmente porque imprevistos acontecem e bagunçam tudo, né? Mas acho uma falta de respeito e consideração quando marco algo com as pessoas e chegam atrasado demais ou não vão. Já até me desentendi com um amigo uma vez por causa disso. E penso como você: passa a mensagem de que o tempo da pessoa é mais importante que o nosso.
    Espero que esse texto seja lido por muita gente porque é pura utilidade pública! haha
    Beijos

  2. Eu me identifiquei muito com o seu post: sou aquela que convive com alguém bagunceiro. Mas aprendi coisas legais como não se importar tanto, não pirar com organização e que uma baguncinha não vai te matar se você não ligar para ela, maaaaas o que mais me irrita é quando é preciso encontrar algo e… Surpresa! Onde está mesmo? E aí aquele tempo que poderia ser usado para outra coisa é trocado por procurar onde aquele objeto foi parar, por exemplo. Tempo e comida não se joga fora, eu penso. Ficar â deriva ou descansar faz parte do tempo, mas perdê-lo é desperdiçar. E para organizar nem é preciso ter caixinhas bonitas, etiquetas bem numeradas ou estantes decorativas, acho que o principal é ter somente aquilo que você vai usar ou está usando e organizar de uma maneira que seja acessível, que você não precise pensar ou se deslocar demais mentalmente para descobrir onde estão as coisas ou ideias. Adorei o post!

  3. Achei esse texto super interessante! Eu faço coro nessa história de que se atrasar é falta de respeito. Poxa, a pessoa que chegou no horário tem as mesmas 24h que o atrasado e conseguiu dar um jeito, né? A Thaís, do VO, fala muito sobre essa coisa das mesmas 24h pra todo mundo.

    Essa coisa de empatia se aplica a muitos outros momentos da vida também, to escrevendo um post sobre isso e não tinha pensado sobre esse caso que você escreveu. É um exercício constante que a gente tem que fazer, né. Se todo mundo pensasse como você, por exemplo, muitos pequenos (ou não!) conflitos seriam evitados (já que ninguém ia largar o maldito sapato no caminho!).

    Outra coisa: adoro o jeito que você escreve! Sinto como se a gente estivesse conversando, e você é muito legal! Eu leio pelo feedly e às vezes não dá pra vir comentar, mas queria aproveitar hoje pra te dizer isso :)

    Beijos!!

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