Desculpa, sou de exatas

A Internet é uma coisa curiosa. (Entre outras tantas coisas.) Ao mesmo tempo em que oferece espaço, voz e visibilidade para mais e mais gente, ela também colabora para as pessoas se polarizarem. A culpa não é da ferramenta em si, eu sei. É nossa. É dessa nossa mania de dualizar tudo. Bem ou mal. Branco ou preto. Rico ou pobre. Homem ou mulher. Hétero ou homossexual. Biscoito ou bolacha. De exatas ou de humanas.

Eu sempre tive essa aversão a rótulos, tribos, classificações, preconceitos, generalizações, simplificações, etc. Não somos coisas, somos gente. Somos múltiplos, complexos, muito mais do que nossa aparência ou qualquer característica diz. Mas seguimos rotulando, classificando, segregando, discriminando e generalizando. E polarizando. Porque ainda mais fácil que colocar as pessoas em caixinhas é reduzir essas caixinhas a apenas duas. Se der pra privilegiar uma dessas caixinhas às custas da outra, ainda melhor. Porque “o mundo sempre foi assim”. Porque “é a lei do mais forte”. Porque “só funciona desse jeito”. Ou qualquer outro argumento babaca da sua escolha.

O post de hoje, entretanto, não é sobre polarizações perigosas, privilégios e opressões. O post de hoje não é sobre machismo, homo e transfobia, luta de classes, nem nada disso. Também não é sobre essa importantíssima questão para xs brasileirxs que é como chamar a/o Negresco. Vou falar sobre um fenômeno muito comum nas minhas timelines: o “sou de humanas” versus “sou de exatas”.

Amiguinhxs, parem.

É claro que muitas piadinhas, tweets e memes são inofensivos. É claro que também brinco com essa boba dualidade de vez em quando. Mas sempre tem aquelxs que não sabem brincar e não só insistem em descer para o play, como em destruir o balanço e acabar com a brincadeira de todo mundo. Além disso, tem sempre quem leve tudo a sério demais e passe a de fato acreditar que as pessoas são completamente definidas pelo fato de terem escolhido uma carreira de exatas ou de humanas. (Daí não sei o que seriam xs que não tem uma carreira ou foram para a área das biológicas. ETs talvez?)

Vamos esclarecer as coisas: o mundo não é dividido em pessoas boas e comensais da morte gente de humanas e gente de exatas. Não somos justamente a geração que não quer ser definida pela sua profissão? Não somos justamente a geração que faz questão de deixar claro que a carreira não é algo central na nossa vida? Acho que não me passaram esse memorando que diz que sim, assim como os workaholics da geração X que tanto criticamos, não só nos definimos por nossos cargos e profissões, como nos definimos pelo nosso diploma e, mais ainda, pela área que escolhemos. Deve ter ido pra pasta de spam.

Eu estou aqui, gente, escrevendo e sendo de exatas. Escrever é a coisa que eu mais gosto na vida, escrevo muito mais (em quantidade e frequência) e até melhor que muitxs amigxs de humanas. Conheço muitxs amigxs engenheirxs, futurxs engenheirxs e gente de exatas em geral que escreve bem, ou é super criativx, ou manja muito de filosofia, ou lê dezenas de livros por ano. Assim como conheço gente de humanas com melhor visão espacial que eu, ou que fazem cálculos de cabeça com mais facilidade do que eu, ou que entendem mais de física do que eu. Estamos na área errada? De forma alguma. Amamos o que estudamos/fazemos, mas somos, obviamente, mais do que a grade curricular das nossas graduações ou as atribuições do nosso trabalho.

Acho tão curioso quando ouço, por exemplo, a expressão “profissões criativas”. Ela é utilizada para jornalistas, publicitárixs, social medias (?), blogueirxs profissionais, etc. Mas, eita, peraí. Engenheirxs também podem ser criativxs no seu trabalho. Afinal, engenheirxs projetamos coisas, cara. Criamos. Muitas vezes, o trabalho de umx engenheirx é mais criativo que o de umx jornalista que usa uma fórmula pronta para escrever uma notícia no jornal. Ser criativx te faz superior? Não. Ser metódicx te faz superior? Não. Dá pra ser criativx e ser metódicx ao mesmo tempo? Dá. Dá pra ser criativx e de exatas ou metódicx e de humanas? Dá também.

Este é só um dos exemplos. Às vezes, rola aquela coisa dx esquerdistx de humanas e dx direitistx de exatas. Dx sensível de humanas e dx racional de exatas. Dx cultx de humanas e dx nerd de exatas. Dx (barbudo) descabeladx de humanas e dx engomadinhx de exatas. Da mina de humanas e do cara de exatas. Dx pobre de humanas e dx ricx de exatas.

Risos. Risos eternos. Vou lá dar um mergulho na minha piscina de dinheiro e já volto.

Como eu disse, eu entendo a zoeira, mas me incomoda demais quando vejo as pessoas levando a sério essas generalizações e as usando para julgar e ofender as outras. Como conheço muita gente de humanas, é muito comum eu me sentir deslocada em uma conversa, ter que ler/ouvir piadinhas ofensivas sobre gente de exatas ou ainda ser o alvo de indiretas ou aquele “bullying amigo” que indica intimidade mas, às vezes, sai do controle e ofende. Por mais que, geralmente, não seja nada demais, é muito chato. E, às vezes, sim, as generalizações são sérias. O intuito do texto de hoje não é este, mas o preconceito de gênero principalmente contra as mulheres de exatas é algo muito relevante. (Recomendo a leitura deste e deste texto, inclusive.)

Daí que eu estava pensando nisto este dias e me lembrei de uma coisa que aconteceu aqui no blog. Quando eu ainda era bixete, em 2010, recebi um comentário anônimo que me incomodou muito. Não o aprovei e o deletei assim que li, mas nunca me esqueci. Ele dizia algo como “Eu nunca desistiria do meu sonho de ser jornalista por dinheiro. Prefiro ser uma jornalista pobre que faz o que ama do que uma engenheira rica e vendida”. Cheguei a acreditar, por um breve instante, que eu de fato havia me vendido. Ou vendido meu sonho. Daí parei para pensar e: que grande bobagem!

Não foi, entretanto, a primeira vez que li ou ouvi algo assim. As pessoas se esquecem que existem muitas profissões de exatas que pagam mal e muitas profissões de humanas que pagam bem. Pense numx professorx de matemática de ensino fundamental/médio e numx juizx federal, por exemplo. Além disso, pode parecer um absurdo para você que tem dor de estômago só de pensar em números, mas as pessoas podem gostar de matemática. Inclusive, as pessoas podem amar exatas. As pessoas podem ser felizes e amarem o que fazem seguindo uma carreira de exatas, sim. Assim como as pessoas podem odiar humanas e até escolher uma carreira de humanas em detrimento de uma de exatas pensando em dinheiro/mercado de trabalho. Por que não?

(Além disso, honestamente, tô meio de saco cheio dessa coisa do “faça o que você ama” e só não vou falar sobre o assunto aqui porque este post já está extenso demais.)

Como eu disse, adoramos rotular, classificar, etc. De certa forma, faz sentido, é mais fácil lidar com as pessoas assim, supondo que elas seguirão sempre um padrão. Mas sabemos que não é assim. Então, por outro lado, não faz sentido alimentarmos esse preconceito no cotidiano. Pode fazer piadinha, dizer que é de humanas, etc., mas cuidado para não ofender, não tirar conclusões precipitadas, não deixar que o preconceito te impeça de conhecer as pessoas melhor, de conhecer as pessoas por trás dos diplomas, dos cursos universitários, as profissões, dos cargos, das aparências, etc.

O post de hoje é assim mesmo: só pensamentos soltos. Desculpa, sou de exatas.

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4 comentários sobre “Desculpa, sou de exatas

  1. Detesto muito a frase “não sei, sou de humanas” porque me incomoda na vida prática inclusive. Tem curso de humanas com disciplina mais pro lado de exatas, e o pessoal fica de mimimi “ai não sei, não nasci pra isso”, e depois na hora das notas diz que o professor é ruim e a matéria difícil, mas na verdade não estudou nada.
    Não gosto do limitar-se, do se enfiar numa caixa onde só dá pra ir até certo ponto. Não sabe e é de humanas? Então procura saber. Também amo mais que tudo escrever, tanto quanto buscar saber, que é lindo demais.
    Exatas, humanas, ressacas, que sejamos todos buscando evoluir e não criar barreiras, né?

    Adorei seu texto <3

  2. Na verdade, esse rótulo de “exatas” e “humanas” não existe. A unica verdade, é que no geral, as áreas de exatas possivelmente te trarão uma estabilidade financeira maior. Eu por exemplo, sempre tive o sonho de fazer Jornalismo ou Publicidade e Propaganda, e até já quis Psicologia, bem como, acho astronomia fascinante (e sinceramente, se tivesse maior empregabilidade, eu faria), e amo física, ou por exemplo, eu sempre fui melhor em matemática do que qualquer outra matéria na escola, e mesmo assim, nunca gostei, porém, amo a área de informática, e passei em TI numa ótima universidade. Tudo é muito relativo, todos possuímos uma tendência maior pra um lado, mas ter afinidade com uma área, não te coloca como sendo especialmente dela, não somos seres tão limitados assim. Vou cursar História, outra coisa que sempre amei, possivelmente ganharei pouco, mas serei um pouco mais feliz do que se fizesse uma engenharia só por dinheiro (meus gostos). Hoje nem me ofendo tanto com as piadas sobre humanas vs exatas, mas é realmente chata quando as pessoas te desclassificam como inferiores por fazer humanas, sendo que, me dou muito bem em exatas também, aliás, qualquer um, é tudo uma questão de estudo. Beijos e adorei o post, aliás, estou acompanhando o blog!
    Desfocando Ideias

  3. Oi, Daniela

    Nossa, eu só uso essa divisão de brincadeira, como vc fez no final do post. Acho surreal quem realmente acredita que o curso que vc escolheu ou sua profissão define vc. Imagina, dividir a humanidade inteira em apenas 2 categorias. Lendo o comentário da Helen, lembrei de uma vez que fui revisar o capítulo de um livro para um cara, e ele me disse, sério, “Pega leve comigo. Você pode achar uns erros de ortografia, mas é porque fiz engenharia, não tive muito essa coisa de escrever, estou começando agora”. E eu fiquei: “Mas, gente”. Tipo, o cara é universitário! Tinha erros grotescos no texto. Foi como se uma pessoa de Humanas dissesse que não sabe somar e subtrair. Ok que ninguém é obrigado a saber nada, mas usar esses rótulos como desculpa é meio surreal. Eu mesmo sou de Exatas (Ciência da Computação) e escrever deve estar no meu Top 3 coisas que mais AMO NA VIDA. A área pode até dizer alguma coisa sobre as pessoas, mas nem de longe diz tudo.

  4. Disse tudo nesse texto maravilhoso!!! Sou menina, não sou rica nem nerd e muito menos de direita. Mas sou de exatas e amo ser de exatas! Já chega de esteriótipos.

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