Minimalismo não é sobre números

Tenho lido várias matérias e posts sobre Caroline, a blogueira do Un-Fancy. O propósito de seu blog é bastante interessante: mostrar para o leitor como ela implementa o minimalismo no seu guarda-roupa. Seu método é a criação, a cada três meses, de um guarda-roupa compacto (capsule wardobre, como ela chama, ou guarda-roupa cápsula, em tradução livre), ao qual ela deverá se limitar naquela estação, sem comprar nem adicionar nada, até a criação de um novo armário, com o mesmo número de peças predeterminado. (Ela explica tudo isso e mais aqui, aqui, aqui e em outros momentos em seu blog. Para quem não lê em inglês, Noellinda escreveu esse post amor lá no Petiscos, explicando tudo bem direitinho.)

O ponto central do blog de Caroline é mostrar que não só é possível viver com menos, como isso traz muitas vantagens, as quais ela lista em vários momentos (inclusive nos textos que linkei no parágrafo anterior). Quando ela apresenta seu método, sua intenção é mostrar aos leitores como ela faz; é apresentar algo que funcionou para ela e que pode (ou não!) funcionar para quem lê. O leitor, obviamente, é livre para implementar sua ideia adaptada ou não ou mesmo a tentar algo diferente, que faça mais sentido para si, inspirado no conceito de capsule wardrobe ou mesmo simplesmente na ideia de possuir um armário mais enxuto. Entretanto, não é assim que o blog e o método de Caroline são apresentados pela maioria dos textos que li.

Grande parte dessas matérias e posts dá muito destaque ao número 37 e isto me incomoda muito. Este é o número de peças do armário cápsula de Caroline. Entendo que a maioria dos textos quer chamar atenção do leitor e por isso faz uso do número que se espera que seja curioso justamente por ser muito pequeno. Mas a questão aqui é, também, justamente essa: 37 não é um número pequeno. 37 não é um número grande. 37 não é o número ideal, ou mesmo um número razoável. 37 é só um número e ele não diz nada porque a quantidade de peças de roupa ideal para alguém é muito relativa. A própria Caroline diz que este é o número que faz sentido para ela e que ela encontrou depois de pensar muito a respeito. Ela não tirou esta quantidade do nada e o leitor também não deveria apegar-se a um número arbitrário e aleatório que pode não fazer o mínimo sentido para si. Se o método de Caroline lhe parece interessante, acho importante refletir sobre como implementa-lo de modo que funcione para si. Isso inclui fazer as adaptações necessárias, o que deve alterar este número e talvez até mesmo a necessidade de se definir um número.

O objetivo deste post não é criticar os autores que dão destaque ao número 37. O objetivo aqui é fazer o leitor refletir sobre duas coisas: 1) o fato de que pessoas diferentes, em contextos diferentes, possuem necessidades diferentes e 2) o fato de minimalismo nada ter a ver com números. Sobre o primeiro item, acho que já falei o suficiente. Para concluí-lo, só quero dizer que acho interessantíssimo conhecer o método de Caroline, mas que acho bobagem tentar replica-lo com exatidão porque o que funciona para ela não necessariamente pode funcionar para você. Isso vale para qualquer método ou dica sobre o qual a gente leia na Internet. Dito isso, quero partir para o que realmente me motivou a escrever este post.

Minimalismo nada tem a ver com números. Ainda assim, me deparo sempre com artigos sobre o assunto que focam excessivamente em quantidades e/ou tamanhos. É reportagem sobre a família que passou a gerar apenas 1 saco de lixo por ano. É texto sobre o casal que deixou de morar num apartamento grande para viver em um container de 15 metros quadrados. É artigo sobre a pessoa que possui apenas 100 objetos. É texto sobre a moça que ficou 1 ano sem comprar nada. E é post sobre aquela outra que tem apenas 37 peças de roupa em seu armário.

Vocês podem achar que eu estou apenas sendo chata e que manchete e título de matéria e post é assim mesmo. Eu entendo isso. Eu tô nessa coisa de produzir conteúdo pra Internet há 12 anos e consumo conteúdo praticamente desde que aprendi a ler. O que me incomoda não é o autor usar atrativos em seu título para ganhar a atenção do leitor. Longe de mim. O que me incomoda é o tal do destaque pro número, especialmente em artigos sobre minimalismo. O que me incomoda é que o número continua sendo importante e, muitas vezes, central, também no corpo da matéria. Porque focar em números não é interessante quando se trata de minimalismo.

Acredito que o conhecimento é a chave para muitas coisas. E, como dizia meu avô, conhecimento não acupa lugá. Vejo muita gente com ideias bastante equivocadas sobre o que é minimalismo, em parte por conta de falta de conhecimento. Eu mesma não entendia nada sobre o assunto e, ao pesquisar, me deparava com muita informação errada ou incompleta, muitos textos superficiais, limitados e clichês. Grande parte desses textos cometia justamente o erro de colocar seu foco em um número, uma quantidade ou um tamanho, ao invés de discutir a ideia e o conceito de minimalismo.

Minimalismo não é sobre números. Minimalismo não é sobre ter poucas coisas. Minimalismo não é sobre viver em cubículos e conseguir carregar todas as suas coisas num carrinho de mão. Minimalismo não é sobre largar tudo e virar monge. Minimalismo não é sobre morar em ambientes com poucos móveis e pouca cor. Minimalismo não é sobre ser vegan e cultivar sua própria comida. Minimalismo não é sobre fazer yoga e meditação. Tudo isso pode fazer parte de um estilo de vida minimalista, mas não são o cerne da questão.

Minimalismo é sobre focar-se no essencial. O curioso é que grande parte dos textos sobre minimalismo que leio fazem justamente o contrário, focando-se em questões acessórias. Minimalismo é sobre autoconhecimento, é sobre desapego. É sobre saber o que é prioridade para si e colocar seu foco nestas coisas – que podem, inclusive, não serem “coisas”, ou seja, não serem bens materiais.

Além disso, pelamordadeusa, minimalismo não é uma competição pra ver quem tem menos. (Aff, não vou nem me prolongar no assunto porque, né? *revira os olhos*)

Vamos nos desapegar dos números e dos conceitos equivocados? Vamos, sim.


P.S. 1: Thais, do Vida Organizada, também escreveu um post sobre o assunto estes dias. Nele, ela explica o conceito de armário cápsula, dá dicas sobre como implementa-lo, etc. Ela também criou um board no Pinterest que pode ser uma ótima fonte de inspiração, principalmente porque, nele, é possível ver como pessoas diferentes têm usado o método. Ainda neste sentido, Mandy começou a criar um capsule wardrobe também e escreveu um post bem bacana mostrando como tem dado os primeiros passos e como adaptou o método para sua realidade.
P.S. 2: Gosto de ler sobre minimalismo nos blogs Meu Diário Minimalista, Minimalismo na Prática, Minimalizo, The Busy Woman and the Stripy Cat, Vida Organizada, Vida Minimalista, Zen Habits (em inglês), entre outros. Notem que nem todos estes blogs são necessariamente sobre minimalismo, mas têm posts bem legais a respeito.
P.S. 3: Já escrevi sobre minimalismo e organização na Revista 21 e sobre declutter aqui.

Crédito da foto do topo: Caroline, do blog Un-Fancy

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4 comentários sobre “Minimalismo não é sobre números

  1. Dani, foi um dos primeiros textos que realmente gostei sobre minimalismo. Não entendia porque meu subconsciente implicava tanto com eles e agora acho que você conseguiu colocar em palavras por mim. As pessoas meio que desvirtuam as coisas, sem querer mesmo. Transformam em modelos numéricos, e cara, a essência é realmente outra!
    Adorei!
    Beijos! <3

  2. Dani, acho que é a primeira vez que deixo de ser uma leitora fantasma pra comentar de verdade, mas é que eu achei tão tão bom seu texto sobre o assunto que precisava dar minha opinião não requisitada. Eu gosto muito da Caroline, sabe? Achei sensacional quando vi o blog dela pela primeira vez e comecei a passear pelos looks e pela história dela e pelas dicas, coisa e tal, e foi por isso que eu me empolguei também quando comecei a ver que outras pessoas estavam falando sobre ela. Infelizmente minha empolgação só durava até eu abrir o blog em questão e começar a ler, porque aí a preguiça imperava e eu já não sabia nem se a Caroline era assim tão legal porque de repente as pessoas estavam pintando ela de uma forma que me parecia bem menos interessante do que realmente é. Eu entrei com um pouquinho de preguiça aqui também. Pensei “aff, mais um post sobre a Caroline”, mas daí que eu me surpreendi pacas? Porque você colocou aqui exatamente o que eu penso sobre essa história e nossa, que alívio ver uma pessoa que não vê minimalismo como número ou como uma competição ~pra ver quem tem menos~.

    beijo!

  3. Oi Dani, também li alguns textos sobre o guarda-roupa compacto e logo vi que não serviria para mim exatamente pelo apego que as pessoas tinham de delimitar o número de peças como se fosse uma regra imutável. Seu texto foi ótimo no sentido de mostrar que não tem nada a ver com números, mas sim com o conceito. É bom finalmente ver alguém expondo essa opinião e fazendo o minimalismo ter mais sentido. rs
    Beijos

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