A Fantástica Terra das Coisas que Quebram

Quando se é uma pessoa desastrada, é normal conviver com canecas com a borda lascada, roupas com rasgos ou buracos misteriosos e hematomas arroxeados na canela. O desastrado sabe que fatalmente coisas estragarão, quebrarão, rasgarão e, eventualmente, serão descartadas. Isso vale pra canecas, roupas e até mesmo canelas, no final da vida.

Não que os desastrados tenham participação no desfecho de suas existências. É verdade que as consequências do desastre do desastrado aumentam com o passar dos anos. Se você cai aos 10 anos de idade, se levanta, sobe na bicicleta novamente e continua seu caminho. Quando você cai aos 80, pode quebrar o quadril. Entretanto, conforme o desastrado cresce, ele desenvolve as mesmas habilidades de um não-desastrado. É claro que sua coordenação motora nunca será equivalente a de uma pessoa comum, mas ela evolui o suficiente para que os desastrados, já conscientes de sua condição, consigam evitar alguns acidentes.

Eu sou uma pessoa desastrada. E eu tenho aprendido, diariamente, há anos, desde que me entendo por gente, a lidar com o meu desastre. A cada novo objeto perdido, a cada novo machucado, aprendo uma lição diferente. Não coloca a televisão em cima da cama, principalmente na beiradinha, porque ela vai cair. Não bate a porta da frente com tanta força que o número do apartamento vai se soltar. Não arrasta a escrivaninha com a luminária em cima porque vai ela tombar e quebrar. Não coloca aquele pote de plástico desconhecido no microondas porque ele vai derreter. Olha pra cima na hora de se levantar quando estiver ajoelhada limpando o armário da cozinha porque você pode bater a cabeça na bancada da pia, ter uma concussão e quase desmaiar na aula da tarde.

(Ainda não sei como estou viva depois de cinco anos morando sozinha.)

A questão aqui é que meu desastre diário tem um agravante sério. Não bastasse eu nascer com esse dom (auto)destrutivo, eu nasci com o dom de me atrair coisas negativas. Ou azar, se você preferir.

Daí o que acontece é que não importa se eu aprendi a lição sobre o pote de plástico. Quando eu comprar um recipiente especialmente projetado para ir ao microondas (e pagar muitas dilmas por ele por este motivo), ele vai derreter da mesma forma. Não importa se eu tenho tomado cuidado com a televisão. No mês seguinte, meu namorado vai quebrar minha cama. Não importa se eu aprendi a desentupir o vaso sanitário. Agora, é o chuveiro que vai dar problema. E agora que aprendi a trocar a resistência, meu apartamento, o azar ou a conspiração internacional decidiu ser incrivelmente criativo e todo o piso do meu quarto se soltou, criando um ambiente digno de pós-terremoto, onde tenho brincado de campo minado toda noite antes de dormir.

Alguma seguradora a fim de patrocinar este blog?


P.S. 1: Escrevi este post há um mês e por alguma razão misteriosa, não o publiquei. Pois bem, publico-o agora mesmo, então.
P.S. 2: Sim, eu estava on fire nesta coisa de blog e esperando postar muito em junho e daí, eu sumi. O fato é que eu tive uma semana muito complicada, com o mundo desabando sobre minha cabeça, etc. Mas, agora, com tudo razoavelmente no lugar, talvez eu consiga aparecer mais por aqui, mesmo sendo final de semestre. Aliás, o último final de semestre.
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4 comentários sobre “A Fantástica Terra das Coisas que Quebram

  1. Sei que geralmente não comento, mas vi o link para este post logo após trocar o copo que a minha mãe tinha me oferecido porque fiquei com medo de quebrar no caminho até o computador. Ou seja: me sinto representada. Já quebrei duas garrafas de vinho ainda sem abrir, bato a cabeça tão forte que acordo quem está dormindo e meus joelhos são roxos na maior parte dos dias. E, bem, talvez o azar tenha vindo através de algum acidente desastrado que causamos antes mesmo de nascer. A nossa existência é um milagre.

  2. O meu grande problema é que eu não aprendo nada com as coisas que desastradamente eu destruo. haha Eu sempre repito o erro. Mas devo confessar que acho que há um certo azar que me ronda também. Não é possível que eu seja a culpa de tudo. haha

  3. Caraca, e eu achando que era desastrada! Eu nunca derreti nenhum pote no microondas, mas quase explodi o mesmo quando era mais nova porque coloquei um pão embalado em papel aluminio pra esquentar \o/ hahaha
    Meu azar é cumulativo, passo meses sem nenhuma desgraça, mas quando elas acontecem… Por isso que banho de sal grosso nunca é demais, nem procurar passar longe de quinas e maçanetas hahahaha

    beijos!

  4. Parece até que o texto foi escrito para mim. Sério. Já derreti vários potes no micro-ondas, tenho uma cicatriz na cabeça que nem lembro onde eu fiz já que vivo batendo a cabeça em algum lugar. Vivo tropeçando e com as pernas roxas e etc, etc, etc. Hahahaha
    Amei o texto e amei saber que não estou sozinha nessa “fantástica terra das coisas que quebram”.
    Abraço!

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