O que você vai ser quando você crescer

Quando eu era adolescente e comecei a gostar de música e a descobrir os “clássicos do nosso cancioneiro” que até então me passavam batido, duas canções passaram a me intrigar pelo mesmo motivo. O “é preciso ama-a-ar as pessoas como se não houvesse amanhã” do Renato tinha, vejam só, muitos outros versos e alguns deles diziam “[seus pais] são crianças como você, o que você vai ser quando você crescer“. Elis, por outro lado, cantava em alto e bom som – nos versos mais conhecidos de Belchior – que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais“.

Não pode ser. Eles não podem estar certos. Isso não vai acontecer.

Eu não sei quanto a vocês, mas simplificando bastante, minha relação com meus pais teve três fases: a iludida fase do herói, a iludida fase do vilão e a realista fase do, sei lá, ser humano (?). Quando eu era criança, meus pais me eram verdadeiros heróis, perfeitos, impecáveis. Eles sabiam de tudo. Eles nunca erravam. Eles eram as melhores pessoas do mundo inteirinho e não havia sequer uma coisa de errado com qualquer um deles. Na adolescência, esta imagem virou do avesso. Meus pais eram cheios de defeitos, não compreendiam, faziam tudo errado, eram a antítese do que eu queria ser quando crescesse. Daí o choque.

Renato e Belchior, pelo amor de Cristo, me digam que isso aí é mentira.

Só que daí a gente cresce mais um pouco. A adolescência, por mais incrível que pareça, acaba e sobra um ser humano razoavelmente pronto. Ainda há muito o que ajustar e melhorar e talvez a gente até mude bastante nos anos seguintes, mas, nos formamos, nos chamam de adultos agora e nos jogaram no mundo, afinal de contas, era este o objetivo. É claro que isso não acontece do dia para a noite. A maioria de nós vai cortando o laço de dependência com os pais aos poucos e levamos um tempo para nos identificar não mais como um adolescente. Essas coisas podem, inclusive, acontecer em momentos diferentes. Eu, por exemplo, ainda dependo muito dos meus pais e já posso me considerar, com 24 anos na cara e alguma experiência fora do ninho, uma adulta. (Uma adulta mequetrefe, mas ainda assim uma adulta.)

O fato é que, sim, ser adulto muda tudo. E, com estas mudanças, veio a descoberta de que Renato e Belchior estavam certíssimos. E que isto não é tão ruim.

Olha, não sei se é assim com todo mundo, mas foi assim comigo. Entrar na idade adulta não só me mostrou que eu era muito mais parecida com meus pais do que eu imaginava, como me fez vê-los de uma maneira totalmente nova. Como eu disse, realista. Não sei se é uma questão de maturidade ou se a empatia é mais fácil quando a gente se enxerga mais próxima de alguém – neste caso, por conta da faixa etária -, mas o fato é que aconteceu e ver meus pais como gente como eu, como gente que tem uma porção de defeitos, mas também um punhado de qualidades, como gente que comete erros tanto quanto acertos, enfim, simplesmente como gente, mudou tudo.

E pra melhor.


Imagem do topo: Big Mike, Mike e Rusty provando minha teoria no S02E09 de The Middle.

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6 comentários sobre “O que você vai ser quando você crescer

  1. Bem isso que você disse: quando somos crianças queremos desesperadamente ser iguais a nossos pais. Quando somos adolescentes, queremos desesperadamente ser diferentes. No fim das contas descobrimos que eles são gente como a gente. Em vários sentidos.

  2. Dani, é legal ler seu texto, porque temos a mesma idade, e estou passando bem por essa transição de enxergar meus pais como pessoas, mais como pessoas do que como pais. E percebendo, inclusive, que é possível que a gente não se dê bem com eles, e que tá tudo bem: são pessoas. Obrigada por esse texto-consolo-abraço-virtual que me fez sentir compreendida :)

  3. Dani, concordo muito com tudo que você escreveu. Nunca cheguei a rivalizar totalmente com meus pais, e sempre foi fácil pra mim me colocar no lugar deles. Acho que essa transição entre aceitar que nossos pais são seres humanos falhos e que não tem todas as respostas pra tudo é um dos grandes baques da vida, e acho que uma das coisas mais legais da ~vida adulta~ é conversar com meus pais de igual pra igual, sabe? Claro que ainda não é como falar com um amigo, mas gosto de ver eles compartilhando coisas que não diziam antes (apesar de ser meio estranho às vezes), e tendo essa confiança em mim e nas minhas decisões. Que loucura a vida, né?
    beijos

  4. Amei amei amei seu post! Realmente, você disse tudo o que passa pela nossa santa cabecinha quando chegamos a idade adulta. Quando mais novos, temos pavor só de pensar que podemos ficar igual à eles – principalmente na fase vilão…adorei essa! Mas depois percebemos que isso nem é tão ruim assim e a vida segue e ninguém morre por causa disso. Muito realista seu post! Parabéns!
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com

  5. Ei Dani! Adorei o seu texto. Acho que é inevitável fazer essas comparações quando a gente cresce, né? Eu nunca tive grandes problemas com meus pais, mas achava sim que ser adulto era muito melhor porque a gente podia fazer o que queria, nunca ficava de castigo (rs) e sabia tudo – até que eu aparentemente virei adulta e, como diz Neil Gaiman, tenho a sensação de que só cheguei aqui para descobrir que NÃO EXISTE NENHUM ADULTO NO MUNDO, porque somos todos crianças tentando mostrar alguma coisa que nem sabemos direito o que é, sabe? Saber que nossos pais, assim como nós, podem não fazer ideia de muita coisa também acaba nos deixando mais próximas a eles e mais solidária, né?

    Beijo!

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