A problemática do e-mail pra professor

Sair da casa dos pais, fazer faculdade, procurar emprego… Entrar na vida adulta é um grande desafio, composto de vários desafios menores, mas não menos assustadores, como estes aí. E estes, por sua vez, também são formados por outros tantos desafios menores porque a vida é assim mesmo. Alguns deles são menos desafiadores, outros são mais. Às vezes, por si só, pela própria natureza do problema, mas, muitas vezes, é por conta da gente mesmo, da nossa personalidade, das nossas habilidades, de quem a gente é e do que a gente faz. Apresentar um seminário na faculdade, por exemplo, pode não ser nada demais para aquela pessoa expansiva e que tem facilidade de falar em público, mas pode ser um desafio monstruoso para alguém tímido.

Dentre os muitos desafios que eu já esperava enfrentar quando começasse a faculdade, me mudasse para uma cidade (~ 5x) maior e passasse a viver sozinha a 170 km de distância dos meus pais, não estava o simples ato de enviar e-mails. Afinal, que dificuldade há nisso? Enviar e-mail é algo tão trivial, tão cotidiano, tão simples. Eu enviava e-mails desde que abri minha conta no Bol em 2001 (!). Eu usava Internet desde 1999 e computador, desde 1996. Bitch please, sou pioneira nesta coisa de Internet. Tenho blog desde 2003, manjava um bocadinho bom de HTML que aprendi sozinha, passava minhas tardes e madrugadas diante de um pc e troquei e-mails diariamente com amigas virtuais por anos, antes de migrar as conversas para o MSN. Mas é claro que a dificuldade não seria técnica e eu não sabia disso.

O que nunca me passou pela cabeça é que encaminhar um power point pras colegas de escola ou enviar fotos do aniversário da prima para minha mãe era algo totalmente diferente de enviar uma mensagem para um professor, por exemplo. Ainda mais para aqueles professores novos que, diferentemente dos do colégio, não eram meus amigos* e me intimidavam absurdamente com seus currículos quilométricos e, às vezes, postura de pica das galáxias. (Vamos fingir que não me intimido nem um pouquinho mais? Vamos.)

Daí o primeiro ano da faculdade foi uma coisa bem horrorosa em termos de e-mails. Para começar, eu usei muito meu e-mail naquele ano. Soa até esquisito dizer isso, mas no ano em que entrei na faculdade (#avelha), as redes sociais ainda eram um espaço bem restrito. Eu só usava meu Facebook para jogar FarmVille porque a maioria das pessoas que eu conhecia ainda usavam o Orkut. Este, inclusive, foi muito útil na comunicação com meus novos colegas de sala e veteranos, mas o e-mail era muito mais utilizado, principalmente para assuntos mais importantes. Assim, minha caixa de entrada estava permanentemente lotada de mensagens sobre aulas canceladas, trabalhos em grupo e notas de prova. Hoje, a maior parte da comunicação é feita via Facebook e Whatsapp e praticamente apenas os professores ainda usam o e-mail da turma.

Bem, mas a questão é que, além do volume gigantesco de e-mails trocados no meu primeiro ano, o que era absolutamente novo para mim e, portanto, me fez apanhar bastante para gerenciar tudo por um tempo, ainda tinha o tal do escrever-e-mail-para-professor. Era sempre um pesadelo. Será que estou sendo formal demais? Será que estou sendo muito informal? Será que me fiz entender? Será que escrevi demais? Será que não está muito curto? Será que eu vou parecer idiota? Será que eu vou soar arrogante? Será que fui muito grosseira? Será? Será? Será?

Foram muitas horas da minha vida perdidas para enviar mensagens de uma única frase. Foram muitas unhas roídas e até dores de cabeça causadas pela simples perspectiva de ter que escrever um e-mail para um professor. Foram muitas negociações com colegas. “Se você enviar o e-mail, eu faço sua parte no trabalho”. Foi muito drama desnecessário. (Porque se não fosse o drama desnecessário não seria eu.)

Aos poucos, entretanto, essa coisa do e-mail foi ficando mais fácil. Depois de fugir de muitas mensagens que podiam ser enviadas por outras pessoas, comecei a encarar o desafio mais vezes. “Deixa que eu mando” eram palavras proferidas com a falsa segurança de quem acha esta a mais simples das tarefas. Quando eu, de fato, obrigatoriamente, tinha que enviar um e-mail, respirava fundo e mentalizava que “poderia ser pior, poderia ser por telefone”. Cheguei até mesmo a pesquisar sobre o assunto, procurar por modelos prontos, ler atentamente e-mails enviados por colegas a professores com cópia pra turma e perguntar para as outras pessoas como elas faziam. Pode parecer bobagem, mas até que ajudou.

Hoje, anos mais tarde, em plena “prorrogação” da minha graduação, estava reparando em como enviar e-mails – para os professores, inclusive – se tornou algo verdadeiramente trivial. Se antes era um acontecimento, se antes levava uma hora para redigir uma mensagem de poucas palavras, hoje respondo boa parte dos meus e-mails pelo celular no ônibus, nos intervalos entre as aulas**, em salas de espera e até mesmo ainda na cama antes de me levantar. Mesmo para resolver questões mais delicadas e redigir e-mails mais longos, o processo ficou bem mais simples. Acredito que a experiência me deu confiança e era isso o que me faltava. Por mais que eu escolhesse as palavras, revisasse o texto e seguisse modelos prontos, eu nunca ficava satisfeita com a redação de um e-mail porque me faltava confiança.

Se este post tem um propósito, além de expor um dos meus (antigos) pontos fracos mais (aparentemente) bobos, é o de mostrar que a gente evolui, sim, o tempo todo, em várias áreas, ainda que devagar, ainda que não na velocidade que a gente gostaria, ainda que não como a gente imaginava. O objetivo deste post talvez seja mostrar para um leitor que tenha uma dificuldade qualquer que é ok ser ruim em algo em que as outras pessoas aparentemente são todas boas. Todo mundo tem fragilidades e dificuldades e nem todo mundo é tão bem resolvido quanto a gente pensa. Além disso, nem todo mundo que é bem resolvido nasceu assim. Habilidades, sejam elas quais forem, podem, sim, até certo ponto ao menos, serem desenvolvidas, treinadas, praticadas.

Além disso, acho que o mundo seria mais agradável se a gente pudesse simplesmente admitir nossos medos, pontos fracos, dificuldades e dramas… Todo mundo tem os seus e a gente tem medo de admiti-los porque estamos sempre querendo passar a melhor imagem de nós mesmos uns pros outros justamente porque vivemos julgando uns aos outros. Talvez se fôssemos mais empáticos, se nos colocássemos mais no lugar dos outros, se tentássemos compreender os outros, seríamos mais tolerantes e pacientes com nós mesmos.

* Um dos meus professores favoritos da graduação disse isso em seu primeiro dia de aula. (E arrisco dizer que ele estava errado.)
** Não, não tenho aulas mais desde junho, mas quis manter este texto tal como quando ele foi escrito, em algum momento do semestre passado. Just for the record: a pasta de rascunhos do blog está lotada e estou tentando, ainda que, aos poucos, aproveitar e publicar estes textos todos.

Crédito da foto do topo: Ed Gregory

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2 comentários sobre “A problemática do e-mail pra professor

  1. Eu lembro que quando comecei a mandar email para os professores na faculdade, também ficava nessa paranóia de como escrever, mas com o tempo fui perdendo.
    O meu grande problema era se o professor iria ler aquele email ou responder no tempo necessário. O que quase nunca acontecia e eu acabava me ferrando haha.
    Beijo
    http://www.debsbraga.com.br

  2. Nunca tive problema com isso, tento ser formal sem exageros e é isso mesmo. Até hoje não recebi reclamações, mas tenho muitas amigas que piram com isso e sempre me pedem ajuda quando vão mandar algo pros professores =P haha

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