Das necessidades blogueirísticas do ser humano

Eu escrevi vários posts nas últimas semanas. Na minha cabeça. Enquanto andava de um lugar para o outro.

Os últimos meses foram foda. Tão foda que, nas últimas semanas, eu me obriguei a tirar, no mínimo, o momento dos meus deslocamentos para não pensar em nada. Ou melhor: para não pensar em problemas, coisas a fazer, etc. Para afastar minha mente das muitas coisas que estavam (estão) acontecendo na minha vida no momento e me focar em qualquer outra coisa: no caminho, no tempo, nas pessoas. Qualquer coisa que não fosse “relevante”, “importante” ou “prioridade”.

Isso me fez muito bem. As cansativas caminhadas obrigatórias diárias acabaram se tornando pequenos respiros no meu cotidiano. Por mais que elas sejam responsáveis pela dor nas pernas no final do dia, elas mantiveram minha sanidade em momentos de estresse e cansaço absurdos. Porque, muitas vezes, quando o mundo está desabando sobre a sua cabeça, o que você precisa é parar um pouco e reparar como o céu fica cor de rosa quando o sol começa a se pôr. Ou como a maioria dos jardins do seu bairro tem as mesmas flores. Ou como o cachorro do vizinho da rua de cima se parece com Íris, a cã.

Nestas caminhadas, muitos textos me surgiram como mágica. Verdadeiros ensaios sobre as cotidianices mais singelas se formaram na minha mente, palavra a palavra, completos e prontos, esperando apenas ganhar o papel ou a tela do computador. Mas não ganharam.

Palavras-chave, potenciais títulos e até mesmo parágrafos inteiros foram anotados. E perdidos. Alguns textos chegaram a tomar alguma forma nos rascunhos do blog, mas nunca me voltavam tão completos como naquelas caminhadas. Era como se, ao chegar ao meu destino e dar de cara com os problemas e coisas a fazer, meu cérebro se recusasse a gastar energia com qualquer coisa que não fosse “relevante”, “importante” ou “prioridade”.

Quando digo, de brincadeira no Twitter, que “odeio quando minha vida atrapalha minha blogagem”, falo disso. O meme (é mesmo um meme?) é apenas uma forma de dizer que é um saco quando uma área da sua vida toma toda tua atenção e energia a ponto de não sobrar nem um pouquinho de si para aquilo que, ok, não é prioridade, mas jamais deixará de ser importante.

As caminhadas mantiveram minha sanidade, mas não substituíram a escrita. Descobri, nas últimas semanas, que sou, por que não, uma escritora. Não por profissão ou por talento. Mas por necessidade mesmo.

Aliás, talvez a palavra nem seja escritora. Seja blogueira. E a necessidade nem seja apenas de escrever, mas de blogar. De publicar minhas futilidades e relevâncias e ler e comentar as futilidades e relevâncias dos outros. De sentir o calorzinho gostoso de um abraço num comentário carinhoso ou num texto de alguém que eu nem conheço. De comemorar como se tivesse ganho na loteria quando meu blog é citado num outro blog.

É curioso como eu não tinha planejado nenhum post metalinguístico para este mês, apesar de ser o aniversário do blog, e ainda assim ele acabou acontecendo. Na verdade, outubro seria apenas mais um mês de hiatus forçado por conta da reta final do TCC. Mas acontece que, passada a etapa mais difícil do trabalho, e agora que as coisas começaram a se acertar nas outras áreas da minha vida (ou porque muitos problemas foram resolvidos ou porque eu já esteja mais adaptada às novidades), estou, aos poucos, voltando a pôr atenção e energia naquelas coisas que ficaram meio de lado. Eu imaginava que voltaria a postar no blog contando tudo o que eu me lembrasse do que andou acontecendo enquanto andei mais distante da Internet. Mas, honestamente, não é disso que preciso agora.

O que eu preciso é de um tempo. Tempo para sair deste estado zumbi trabalha-estuda-resolve-problema e voltar a fazer minhas coisinhas e a cuidar do resto da minha vida. E, quem sabe, voltar a escrever posts aqui. E não na minha cabeça.
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5 comentários sobre “Das necessidades blogueirísticas do ser humano

  1. Dani,
    Me conforta saber que há mais pessoas passando por essa situação. Fui lendo seu texto e percebi que cada linha dele poderia ter sido escrita por mim, e não sei se isso é um problema (talvez sim).
    Gostei especialmente quando você diz que “é um saco quando uma área da sua vida toma toda tua atenção e energia a ponto de não sobrar nem um pouquinho de si para aquilo que, ok, não é prioridade, mas jamais deixará de ser importante”. Sinto que, constantemente, tudo o que faço é cumprir ordens, horários e prazos, resolver problemas, estar disponível para outras pessoas. A falta desse tempo blogando, ou fazendo qualquer outra coisa que não seja por obrigação, me deixa muito chateada no dia-a-dia. Parece que tudo é pesado demais, importante demais, obrigação demais.

    Sinta-se abraçada! Espero que essa sua fase passe logo e que você tenha mais tempo para si – o que nos faz um bem danado!

    Beijos e parabéns pelo post!

    Lari

  2. É bom dar aquele tempo quando estamos sobrecarregados. Eu também crio milhares de textos e tenho ideias ótimas, mas o tempo me impede de parar e colocar no papel, e depois, isto se perde :(
    Mas nossa vida é feita de prioridades, as vezes não temos muita escolha…

  3. Esses momentos são os mais criativos para mim, e geralmente ocorrem dentro do ônibus, enquanto abomino a paisagem feia da minha cidade. Às vezes até tiro os fones, para que a trilha sonora não interfira, e faço dos barulhos da Cidade a trilha sonora perfeita pro momento.

    Me idintifiquei demais com teu texto, obrigada.

  4. Comigo também acontece isso sempre, nos momentos que menos espero, surgem textos prontos na minha cabeça, e na hora em que tento coloca-lo no papel, pluft! Se fragmentam! Já era. Em janelas de ônibus por exemplo, sempre rolam ótimos devaneios, e quando estou lavando os pratos é realmente uma terapia. Eu amo escrever, é meu modo de sair da gaiola, de respirar, tanto que apesar de te um blog e escrever bastante por lá, eu tenho muita vergonha de mostrar pras pessoas os meus textos, pois é tão pessoal que é como se elas tivessem me enxergando através de uma visão de raio x.

    Me identifiquei bastante com seu post. Beijos.

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