Sou dessas que chora em show

Eu confesso. Sou dessas que chora em show.

Posso pular como se estivesse em uma cama elástica ou ficar simplesmente paralisada. Posso gritar ahhhs, ohhs, liiiindooos e maravilhooooosoooos ou manter-me em silêncio absoluto. Posso fechar os olhos ou deixá-los bem abertos e fixos no palco. Posso bater palmas educadamente ou terminar o show com as palmas das mãos vermelhas. Posso ter experiências completamente diferentes em shows diferentes (e mesmo durante um mesmo show), mas o choro é certeiro. Cada um com suas estranhezas, não é mesmo?

Acho que isso começou lá em 2005, quando, pela primeira vez na minha vidinha de adolescente “roqueira” “incompreendida” do interior, vi ídolos meus num palco a poucos metros de distância. Quando o Capital começou a tocar Primeiros Erros, aquela minha música favorita que é a favorita de tanta gente, as lágrimas vieram. Que coisa linda era aquele mar de gente (que nem era tão mar de gente assim) levantando as telas verdes dos celulares acesas (porque eu não tinha idade o suficiente pra ir em show quando ainda erguiam isqueiros, mas sou velha o suficiente pra ter começado a sair quando a maioria dos celulares ainda tinham apenas uma luz verde emanando da tela) e cantando em uníssono aquelas palavras que eu havia decorado uns 4, 5 anos atrás e que eu nunca mais esqueceria. Para mim, aquela era a coisa mais linda do mundo inteirinho.

No ano seguinte, fui ao meu primeiro show sem meus pais. Eu não era fã do Ira!, mas eu tinha que me contentar com a cota anual de rock da Festa da Soja. Ainda assim, (é claro que) chorei. Em algum momento, me dei conta de como aquele singelo momento era maravilhoso: lá estávamos eu e minha melhor amiga berrando letras que não sabíamos, pulando e batendo cabeça em meio a um bando de gente desconhecida na frente de um palco. O som era excessivamente alto e a qualidade era ruim, a fumaça de cigarro fedia absurdamente, minha voz começava a falhar e minhas pernas doíam, mas eu estava tão feliz que mal podia explicar. Chorei sorrindo enquanto berrava feliz-aniversário-envelheço-na-cidade abraçada com a Tety e poucas vezes na vida me senti tão adolescente.

Em 2007, quando a programação da Festa da Soja (sempre ela) saiu e me deparei com Titãs na lista, fiquei enlouquecida. Clichê que eu era (sou), Epitáfio era (é) uma das minhas músicas favoritas da vida e estava presente em absolutamente todos os CDs de músicas aleatórias que eu gravava no computador (tipo mixtapes dos anos 2000). Aquele show foi um desses shows em que fiquei muda e paralisada, berrei e bati cabeça, fechei os olhos e deixei de piscar, tudo meio que ao mesmo tempo. Voltei a me sentir absurdamente adolescente berrando filho-da-puta-bandido-corrupto-ladrão com as minhas meninas e chorei litros enquanto cantava a plenos pulmões que o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. Quando cheguei em casa, não consegui dormir, escrevi no Capricious (meu antigo blog) e declarei que Titãs era minha banda favorita da vida toda. Adolescentes são muito passionais. (Ou talvez seja eu.)

Cúpula do Mal adolescente

Algumas semanas depois do show do Titãs, eu e meu pai arrastamos minha mãe para o show do Quarteto em Cy numa das primeiras Feiras do Livro de São Joaquim. Era uma vibe completamente diferente e certamente eu não me sentiria nada adolescente ali. Só que mesmo sem todo o clima de show de rock, sem minhas amigas pra abraçar cantando e uma porção de gente fazendo o coral mais lindo de São Joaquim, chorei discretamente sentadinha na minha cadeira. Primeiro porque aquelas mulheres cantam tão lindamente que não se emocionar é quase um crime. Segundo porque eu andava apaixonadinha e recebi um sms com um singelo e estratégico <3 enquanto elas cantavam Eu sei que vou te amar, o que foi um golpe baixo e certeiro do meu futuro (ex-)namorado. Finalmente, terceiro porque eu simplesmente não sei escutar Todo o sentimento sem chorar. Sim, é uma inabilidade.

É curioso que, enquanto o show do Quarteto em Cy marcou o início de um namoro, o show seguinte marcou justamente o final deste mesmo relacionamento. Em 2008, machucadíssima com aquele rompimento conturbado e adolescente, a Cúpula do Mal me arrastou para a Festa da Soja (sim, vou todo santo ano). Era show do Paralamas. De cara, achei uma péssima ideia. Eu não estava no clima. Depois, a ideia me pareceu ainda pior, já que avistei, na festa, o recente ex. Mas daí ouviu-se o primeiro acorde no palco e, como mágica, aquele sentimento se dissolveu. Há hora para tudo e aquela era a hora de pular, cantar e curtir a noite com as minhas meninas. Até que tocou Meu Erro, aquela música que, para mim, até então, era apenas mais um sucesso cuja letra a gente conhece do hábito e canta maquinalmente, mas que passou a fazer um sentido absurdo. Mais tarde, entendi (ou supus) que o sucesso de Meu Erro é justamente essa identificação que quase todo mundo tem com essa letra. Mas, naquele momento, cada palavra parecia ter sido escrita por mim. Você diz não saber o que houve de errado e o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria. No final da música, enxuguei as lágrimas, sorri pras meninas como quem diz “ok, onde paramos?” e voltei a curtir o show como estava fazendo anteriormente. (Só não posso dizer que depois disso superei e segui em frente porque tive que ouvir essa música mais umas muitas vezes, entre idas e vindas, rompimentos e reatamentos, para me convencer de que não, estar ao lado dele – ou de qualquer outro – não bastaria.)

Show do Paralamas do Sucesso na Festa da Soja de 2008
Show do Paralamas do Sucesso na Festa da Soja de 2008

Depois do Paralamas, houve um hiatus em termos de (choros em) shows. Fui a um show do Fresno numa época em que eu fingia não gostar de Fresno (sim, que morte horrível) (2008). Fui a um show do Nando Reis apenas porque o Lu ia e porque eu o queria encontrar (foi quando começamos a namorar) (2010). E fui a um show do Almir Sater, que foi ótimo, mas não teve nada particularmente especial em termos lacrimosos (2011).

Talvez esse intervalo de quatro anos entre um show especial e outro tenha sido para que eu pudesse estocar as lágrimas. Em 2012, teve o show do Chico. Escrevi sobre ele aqui e, até hoje, não sei se consigo dizer mais do que já foi dito.

Felizona no show do Chico
Felizona no show do Chico

No mesmo ano, com saudades de irmos juntas à Festa da Soja, a Cúpula do Mal fomos ao show do Diogo Nogueira. Eu não esperava chorar num show de samba dum cantor que eu mal conhecia, convenhamos. Mas acontece que o moço canta aqueles sambas gostosos que a gente conhece bem e o show é tão lindo que foi impossível não ficar no mínimo encantada. As lágrimas não viriam, mas Diogo cantou Sou Eu. Sou Eu não só é do Chico, como é do disco Chico, da turnê do show que eu havia ido alguns meses antes. O resto vocês já imaginam.

2012 foi, definitivamente, o ano do Chico na minha vida. Algumas semanas depois do show do Diogo Nogueira, fui ao show das Mulheres de Hollanda. Foi absurdamente lindo e não havia outra forma de assisti-lo que não com os olhos marejados. Todo o Sentimento arrasou comigo mais uma vez. Queria eu saber o que diabos essa música tem.

Show do Diogo Nogueira na Festa da Soja de 2012
Show do Diogo Nogueira na Festa da Soja de 2012

Depois de 2012, houve um outro hiato. A vida me engoliu e faltaram oportunidades. Foram quase três anos sem ir a um show e confesso que minha juventude estava me escorrendo pelos dedos porque tenho essa convicção de que a única coisa de jovem que sei fazer é ir a show. Especialmente show de rock.

Eu já estava aceitando que meu destino era ficar vendo os migos mais endinheirados e destemidos indo a shows maravilhosos enquanto eu ficava em casa ouvindo aos discos muitas vezes destes mesmos shows quando surgiu o boato de que Pitty viria na Festa da Soja. Meu eu adolescente não sossegou até ler o nome da cidade na agenda de shows daquele mesmo site que eu visitava tanto nos anos 2000 para baixar fotos e wallpapers. Era verdade, ela viria.

Entre a descoberta e o show, entretanto, a vida seguiu me trollando. Tanto é que aquela empolgação adolescente de quando ouvi os boatos simplesmente desapareceu e não reapareceu nem mesmo no dia do show. Fui à Festa meio arrastada pelo namorado, que topou me fazer companhia. Até o momento do show, me peguei pensando se aquilo era mesmo uma boa ideia. Poxa, eu não ouvia Pitty há anos e só conhecia as músicas dos dois primeiros álbuns. Eu estava cansadíssima, tinha que pegar ônibus no outro dia de manhã, estava preocupada com o TCC. Vida de adulto é uma merda mesmo, eu pensava. Saudades dos meus dezesseis anos, eu reclamava.
Show da Pitty na Festa da Soja de 2015 (foto de show é tudo uma merda, né?)
Show da Pitty na Festa da Soja de 2015 (foto de show é tudo uma merda, né?)

Mas daí as luzes do palco apagaram. Pitty apareceu num telão falando alguma coisa impossível de entender por causa dos gritos. Meu coração disparou. A mulher entrou no palco, cantando uma música que eu nunca tinha ouvido na vida e em menos de dois minutos, eu já estava cantando o refrão com – adivinhem – lágrimas nos olhos.

Foi lindo. Foi incrível. Foi o suficiente para renascer um pouco daquela Daniela que estava sempre com um fone de ouvido ouvindo umas músicas legais, não só ali na hora, pulando, cantando (e chorando), mas também depois, no dia a dia. Valeu, Pitty.

P.S.: Todos as fotos deste post foram tiradas por mim. Daí a qualidade ruim.
Outro P.S.: Fiz uma playlist no Spotify para ouvir enquanto escrevia este post. É claro que ela significa muito mais para mim do que pra qualquer outra pessoa, mas se você gosta dos artistas que eu citei neste post e quiser dar uma conferida, é só clicar aqui. ♫
Mais um P.S.: Esse post foi escrito tem uns seis meses e só agora finalizei (botei as fotos, revisei, etc.). Não sei qual a relevância desta informação, mas achei que vocês deveriam saber (?).
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Um comentário sobre “Sou dessas que chora em show

  1. Eu adoro shows, mas tive a oportunidade de ir em bem poucos porque minha cidade é muito pequena. A minha retrospectiva vai ao ar no dia 31! Feliz ano novo e q Deus te abençoe! Bj e fk c Deus. Nana

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