Velhotíris

Íris, a cã, com 3 dias (out/2004)

Eu nunca imaginei que os cães ficassem grisalhos. Na verdade, acho que eu nunca pensei muito a respeito dessa fase do ciclo de vida dos cachorros. Era como se eles nascessem filhotinhos, crescessem rapidamente e, uma vez em seu tamanho adulto, permaneciam adultos pra sempre. Isto é, adultos do jeito de cachorro, que é que nem a gente criança só que mais legal. Um dia, acontecia deles morrerem. Um atropelamento, uma doença esquisita, qualquer coisa sobre a qual a gente evita pensar porque se a gente não sabe lidar com a morte, imagine morte de cachorro. (Pois é.)

Íris com 1 mês, quando veio aqui pra casa
Íris com 1 mês, quando veio aqui pra casa (nov/2004)

Mas Íris, a cã, me ensinou muitas coisas. Uma delas foi que cachorro não só cresce, como envelhece também.

Quando Íris tinha uns quatro, cinco meses, mesmo já no seu tamanho de crescida, ainda era um bebê. Íris comia parede, chinelo, livro e até os fones de ouvido novinhos do meu iPod recém ganhado. Íris tinha uma carência absurda, vivia fazendo a gente tropeçar porque só andava entre as nossas pernas. Ela acordava antes da minha mãe (que era quem se levantava mais cedo) e só ia dormir depois que o último humano fosse para a cama. Íris, inclusive, era quem me acordava de manhã, pra brincar com ela antes de ir pra escola. Ela trazia a bolinha pra gente jogar e fazia amizade com todo e cada ser humano que pisasse nesta casa. Íris tinha uma porção de brinquedos que destruía, sistematicamente, um a um. Íris foi criançona assim do que dia em que chegou aqui com pouco menos de um mês até fazer uns seis meses. Daí Íris foi ficando adolescente.

Íris com 9 meses, destruindo um rolo de papel higiênico (jul/2005)
Íris com 9 meses, destruindo um rolo de papel higiênico (jul/2005)

Vou ser honesta com vocês. A Íris adolescente era uma chata. Ela rosnava pra crianças, fugia ensaboada no meio do banho, mordia nossa mão quando a gente tentava pegar qualquer coisa da boca dela, inclusive a bolinha que a gente tinha jogado pra ela pegar. Enquanto Íris neném parava a destruição quando a gente chegava pra dar bronca, Adolescentíris parecia fazer de propósito, mostrava os dentes, rosnava, mordia, subia nas mesas pra comer coisas como piranhas de cabelo e o delicioso conteúdo do meu estojo da escola. Os errorex eram seus favoritos, talvez porque explodissem e deixassem tudo, inclusive o seu focinho, sujos de branco. Daí passamos a deixa-la sempre na área externa, mas a bichinha dava sempre um jeito de entrar e destruir mais alguma coisa. Íris adorava passear, mas mordia quando a gente tentava colocar a coleira, pulava nas pessoas no meio da rua e puxava a gente pro lado que ela quisesse. Quando o passeio era de carro, Íris ou tentava pular pela janela ou ficava deitada no banco chorando.

Íris revoltadíssima depois d'A Primeira Grande Tosa (set/2005) (desculpa, amo essa foto)
Íris revoltadíssima depois d’A Primeira Grande Tosa (set/2005) (desculpa, amo essa foto)

A “fase rebelde” da Íris durou uns 4 anos. Quando eu e meus pais fomos assistir Marley e Eu no cinema em 2008, nos entreolhávamos no escuro a cada travessura de Marley como se disséssemos uns aos outros “olha lá a Íris”. As cenas seguintes, entretanto, de Marley mais velho e (um pouco mais) comportado, com olhar cansado e dificuldade pra caminhar, surdo e até doente, não nos disseram muito. “Labradores são diferentes”, dizia a personagem da Jennifer Aniston pra acalmar o filho que achava que o cachorro ia morrer. De certa forma, acho que eu acreditei que eram mesmo e que aquilo de ficar velhinho e morrer não ia acontecer com Íris. Aconteceu com Marley, com o poodle Bob da minha tia Lu e com a imensa vira-lata Tula da minha tia Rosa, mas não com Íris. Não com aquela cachorrinha que corria tão rápido que, mal tinha pulado em nós na garagem, já estava na porta da cozinha do outro lado da casa chorando pra entrar. Não com aquele animal cuja audição era tão boa que sabia que meu pai ia chegar em casa assim que seu carro virava a esquina. Não com aquele bichinho esperto que fugia de casa pra andar no mato e voltava meia hora depois cheia de carrapicho. Não com aquela cadelinha nervosa que rosnava para todos os meus namoradinhos da adolescência e me esperava chegar da escola todos os dias no portão, latindo enlouquecida quando eu me atrasava. Não. Com a Íris não.

Adolescentes (dez/2007)
Finzinho de adolescência (de ambas) (dez/2007)

Só que aconteceu. Primeiro Íris ficou uma adultinha mais comportada, menos barulhenta e destruidora. Ela ainda sabia da rotina de todo mundo, mas já não queria ficar atrás dos humanos o tempo todo. Íris passou a tirar sonecas durante a tarde, cada vez mais longas. Depois começaram as sonecas da manhã e suas noites de sono aumentavam cada vez mais. Íris não conseguia mais ficar acordada até que o último humano fosse para a cama e voltava a dormir depois que meu pai a acordava pela manhã, fazendo barulho na varanda. Íris foi ficando mais lenta, já não conseguia sempre ganhar de mim nas corridas pelo quintal. Seu focinho ficou mais ressecado, as infecções de ouvido passaram a ser mais frequentes. Os pelos foram ficando cada vez mais claros e as manchas escuras do focinho praticamente desapareceram. Subir nas cadeiras, nos sofás e nas camas foi ficando cada vez mais difícil até que ela começou ora a desistir, ora a levar tombos feios em tentativas desesperadas de alcançar a mesa cheia de comida ou o Tic Tac em cima da minha escrivaninha.

Íris nos deu alguns sustos nos últimos dois anos. Ficou doente muitas vezes e nos cortava o coração chorandinha e indo pro que a gente chama aqui em casa de “o buraco da morte”, um canto do jardim onde ela cava um pouco e se acomoda quando está doentinha. Íris teve problema de coluna, infecção séria no intestino e se engasgou várias vezes com comidas que ela vivia comendo antes sem problemas.

Isso fez com que a gente visse a velhice de Íris com uma conotação muito negativa, ficasse triste que a bichinha envelheceu e começasse a se preparar psicologicamente para a morte dela.

Só que Íris sempre surpreende a gente.

Íris segue velhinha, claro. Está cada vez mais grisalha e desconfiamos que tem perdido a visão e a audição. Só que Íris anda saudável. Ainda vive se engasgando pois me parece que não consegue mais quebrar os alimentos mais duros e, ansiosa como é, acaba tentando engolir pedaços muito grandes. (Sim, já substituímos alguns alimentos e estamos cortando/quebrando tudo menorzinho antes de dar pra ela.) Só que Íris anda carente como quando era filhote, se enfiando entre nossas pernas e me acordando de manhã aos uivos (sim). Íris, agora grisalha, pelancudinha e com as tetas flácidas (sim!), se comporta que nem onze anos atrás, assim como alguns dos nossos velhinhos humanos ficam meio crianções no fim da vida.


No ano passado, respondi àquela tag “Meu Animal de Estimação” falando sobre Íris. O vídeo é longo e a qualidade é ruim, mas tem um pouquinho da Íris em câmera, então talvez alguns de vocês tenham interesse em ver. Se for o caso, é só clicar aqui ou dar uma olhada aqui embaixo:

Anúncios

5 comentários sobre “Velhotíris

  1. Que texto fofo Dani! Eu acho que um cachorro é um ser iluminado na nossa vida, nos ensina muito e nos coloca para cima sempre que estamos para baixo! E infelizmente eles se vão um dia. Mas sorte que você ainda está junto dela! A minha quando ficou velhinha teve o mesmo comportamento, ficou doente várias vezes e era muito carente, a gente tinha que cobri-la igual criança toda noite acredita? Mas era um amor! Ela ficou 16 anos comigo e se foi por velhice mesmo, cheia de pelinhos brancos! Mas foi tranquila e com certeza feliz! Por isso nessa fase da vida deles a gente precisa dar muito carinho, assim eles se sentem especiais sempre, mesmo quando eles mais precisam da gente.
    Adorei as foto! Beijos!
    http://lifetoshare.com

  2. Ai meu Deus que texto mais lindo!!! Quase dei uma chorada aqui porque não sei lidar com dogs. ♥ O meu amor é tanto que eu já achei que tinha acontecido algo com Íris e ia ter que levantar da cadeira no escritório pra ir no banheiro dar uma controlada.
    Eu tenho uma bebê também, a Luna. Ela tá na fase adolescente. Tem 4 anos, tá meio mala sem alça, mas continua brincando muito. Esses dias ela nos deu um susto horrível, convulsionou e eu chorei que nem um bebê, porque pensei que ela tava se indo. Foi péssimo, e aí eu percebi o tanto que eu amo aquele bicho.
    Íris é linda e eu queria muito apertar e fazer carinho nela. Hahaha.
    Beijo!

  3. Oie, visitei seu blog porque achei o link no blog da minha amiga Mah e adorei aqui. Pretendo voltar sempre. A Íris é muito linda, cachorro é tudo de bom. Também tenho uma bb peluda e sei como é o carinho no dia a dia, a preocupação e os cuidados. Enfim, é isso, adorei o espaço e pretendo voltar sempre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s