Engenheira. Com A.

Foi mexendo naquele aplicativo perigoso que joga na nossa cara nosso passado internético que eu me lembrei desse post das Blogueiras Feministas de 4 anos atrás, sobre a importância simbólica da lei sancionada pela presidenta Dilma que obriga a flexão de gênero nos diplomas. Lendo-o, lá em abril de 2012, ainda descobrindo o feminismo, razoavelmente distante do meu próprio diploma, compreendi a mensagem daquele texto. E só.

Aquele post chama a atenção para algo que frequentemente ignoramos e inclusive replicamos, de tão intrínseco e natural que nos soa: o machismo da nossa linguagem.

Qualquer mulher pode se identificar com aquele texto, mas foi quando eu fui chamada de engenheira – no feminino – pela primeira vez e, mais tarde, quando peguei meu diploma na mão, que eu o senti, que eu compreendi a importância que aquela identificação tinha, tal como a representatividade (tecla na qual a gente bate o tempo todo, com toda a razão do mundo).

Na faculdade, quando os professores e as (poucas) professoras diziam que “quando fôssemos engenheiros, isso e aquilo”, eu, honestamente, não sentia que estavam falando também para mim, ainda que eu também fosse interlocutora. A norma culta diz que o masculino é neutro e que quando alguém diz “engenheiros” quer dizer “engenheiros e engenheiras“, mas quando eu ouvia isso, conseguia visualizar meus colegas homens trabalhando na área, mas não eu e minhas colegas mulheres. Talvez essa falta de identificação fosse fruto apenas da nossa linguagem machista, talvez fosse intensificada pelo fato de eu estar numa área considerada “masculina” (as exatas, a engenharia…), mas o fato é que eu não me sentia contemplada naquela fala.

Até que um professor, já no 3º ano de curso, alguns meses depois da leitura daquele post, nos chamou de “engenheiras e engenheiros“. Eu, finalmente, consegui me sentir parte daquilo, consegui me identificar, consegui me visualizar engenheira.

Desde então, comecei a reforçar, para mim mesma, que eu seria engenheira. Eu percebi o poder que aquela palavra, colocada ali no feminino, teve para mim. A Thais já falou lá no Vida Organizada uma porção de vezes sobre a importância de a gente visualizar o resultado que a gente deseja, não apenas para nos orientar, mas também para nos motivar. Naquela altura do curso, cansada e estressada, eu já não me lembrava bem porque estava fazendo tudo aquilo. Eu havia chegado naquele ponto em que a gente já está operando no piloto automático, fazendo o que faz somente por fazer, sem saber ao certo por que começou e por que continuar. Só que, naquele momento, me visualizei engenheira e me reconectei com aquele objetivo inicial (e com aquele sonho antigo de estudar na USP que, em determinado momento, tornou-se o sonho de ser engenheira ambiental formada na USP) (desculpa, eu era meio Rory-adolescente-com-parafernália-de-Harvard-na-parede-do-quarto, sim).

Eu sei que algumas pessoas, especialmente homens, vão ler isso aqui e pensar que é tudo baboseira. Eu sei que vai ter gente falando (ou pensando) que precisar que um homem me chamasse indiretamente de engenheira para que eu visualizasse meu objetivo é ridículo. Mas, quando se é mulher e lhe é dito, o tempo todo, que você não pertence a um determinado lugar, que você não deveria ser de determinada forma, que aquilo não é para você, que você não vai dar conta e que não é boa o suficiente porque é mulher, as coisas tornam-se muito mais complexas. Quando se é mulher e se deseja fazer algo que você não vê quase nenhuma mulher fazendo, você se questiona se é isso mesmo que quer fazer. Quando se é mulher e se ocupa um espaço considerado masculino, você é tratada como intrusa, tem que lutar para permanecer ali, provar que é capaz o tempo todo e isso, amigos, é muito estressante. Portanto, ser reconhecida como pertencente àquele lugar, como (potencial) dona daquele título, especialmente por um homem, foi, sim, um big deal.

Nossa linguagem é muito mais importante do que ela pode parecer à primeira vista. As palavras e expressões que usamos no cotidiano dizem muito sobre nós mesmos e a sociedade na qual estamos inseridas e inseridos e podem, entre outras coisas, reforçar a opressão que vivemos ou à qual submetemos outras pessoas (consciente ou inconscientemente). Só que, por outro lado, elas também têm poder transformador. Se a representatividade importa, a linguagem importa também.

(Inclusive, quero escrever um pouco mais sobre representatividade, principalmente das mulheres nas exatas ou em quaisquer espaços tradicionalmente “masculinos”, então, fiquem à vontade para dar sugestões, fazer perguntas, etc. A intenção é que o texto saia de um lugar bastante pessoal, como este, mas isso não impede a colaboração de vocês, ok?)

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2 comentários sobre “Engenheira. Com A.

  1. Eu comecei a sentir essa coisa quando eu entrei no mestrado e fiquei me questionando se eu me tornaria “mestre” ou “mestra”. Isso me fez repensar muito a questão do masculino e no feminino, não só no meu dia a dia, como também na escrita da dissertação. A minha sorte, foi que a minha linha de mestrado esse cuidado era regra: não podíamos generalizar dizendo “os homens fazem isso”. A gente tinha que dizer “os seres humanos…” ou então “os homens e as mulheres”! E uma postura que eu assumi foi sempre me referir primeiro ao feminino, exatamente pra chamar a atenção disso, então eu sempre escrevia “as mulheres e os homens… As alunas e ou alunos…” e aos poucos eu fui trazendo isso pra minha fala também! É difícil, porque esta muito enraizado – o que fica visível quando as pessoas dizem que isso é besteira. Mas besteira é deixar que essas coisas se perpetuem, principalmente quando é muito fácil agir diferente, né?

  2. Acabei de falar ali no outro post que eu amo te ler e que você é incrível só pra você vir e postar mais um texto que eu amo e que é incrível.
    Como estudante de jornalismo não me vejo exatamente numa área tão masculina como a engenharia, por exemplo, mas falamos e refletimos sobre a importância da linguagem e do impacto que as palavras que escolhemos tem. É lindo ver isso acontecendo e longe das teorias. Mas é mais lindo ainda ver sua felicidade. <3

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