Alguns pensamentos soltos sobre Harry Potter and the Cursed Child

Qualquer dia desses (talvez ainda neste BEDA bagunçado?), quero contar para vocês a minha história com Harry Potter. Acho que todo Potterhead tem a sua, assim como a gente sempre tem uma história com aquilo (ou aquele alguém) do qual somos fãs. Mas o post de hoje ainda não é sobre esta história completa. O post de hoje é sobre Harry Potter and The Cursed Child.


Este texto não contém spoilers, exceto quando contém, mas daí eu aviso antes, então pode ler tranquilo.

Eu me lembro direitinho do sentimento de vazio que me invadiu quando eu li as últimas palavras de Harry Potter e as Relíquias da Morte em 2008. Harry me acompanhou minha adolescência toda. Crescemos juntos. Conheci Harry com 11 anos, li o último livro com 17. Dumbledore diz (em HP e o Cálice de Fogo) que “embora venhamos de lugares diferentes, falemos línguas diferentes, nossos corações batem como um só” e isso é tão real, tão real, que Harry, Ron, Mione, Luna, Neville e todos aqueles personagens vêm dum lugar tão, tão diferente do meu (a começar pela magia, né, mores) e ainda assim pareciam todos um pouco parte de mim. Eu me reconhecia neles. Eu sentia algumas das suas dores, eu entendia alguns de seus dramas. Eu encontrava conforto nas histórias daqueles adolescentes que, assim como eu, tinham dúvidas e medo e não faziam ideia do que estavam fazendo, mas não desistiam, não abandonavam seus princípios, não deixavam de lutar por aquilo que acreditavam. Só que, quando Harry vê sua batalha e também sua adolescência no fim, eu também vislumbrei o final da minha. O epílogo salta muitos anos e, quando encontramos os personagens novamente, pela última vez, eles já estão adultos e casados e com filhos e com “a vida resolvida”. E o que aconteceu no meio da caminho? Quais os próximos passos?

Eu sabia que Harry Potter não teria as respostas para as minhas questões de adolescente. Eu sabia que não estava ali a resposta para o que eu deveria “fazer da vida” depois que a escola acabasse ou qualquer coisa assim. Harry Potter nunca foi um Manual da Vida, especialmente da Vida Trouxa, mas sempre havia como traçar um paralelo, sempre havia algo com o que se relacionar. “Hogwarts sempre esteve lá por mim” e de repente não estaria mais e eu confesso que me senti desamparada. Tudo estava bem o cacete.

Anything from the trolley, dears?

Só que a verdade é que nunca ficamos realmente órfãos de Harry. Ou melhor, do mundo bruxo. Primeiro porque ainda havia três filmes a serem lançados. E o Pottermore. E as novas informações e contos que vieram com o Pottermore. E a possibilidade de ser selecionado pelo Chapéu Seletor no Pottermore. E uma quantidade absurda de produtos da franquia. E, claro, os fãs, que com suas fanarts e fanfics e debates calorosos sobre Harry Potter nunca deixarão a história, de fato, acabar. E tudo isso é maravilhoso, só que nada disso é exatamente igual à sensação de pegar um novo livro do Harry nas mãos e embarcar numa aventura completamente nova. Senti algo parecido quando J.K. começou a lançar alguns contos, especialmente aqueles contando melhor a história de alguns personagens (como a biografia maravilhosa de McGonagall), mas eu sempre soube (ou achei) que nunca mais sentiria aquela sensação específica de pegar um novo Harry Potter para ler.

Daí vieram os rumores de uma oitava história, agora com Harry adulto e eu tentei conter o entusiasmo com todas as minhas forças, o que foi de fato uma boa ideia, já que logo foi noticiado o formato da nova história: uma peça de teatro. Fiquei absolutamente emputecida com J.K. Rowling por fazer isso com 99 vírgula sei lá quantos 9s % dos fãs que não teriam acesso à peça, me esquecendo completamente de que havia a possibilidade de o roteiro ser publicado em livro e até mesmo, quem sabe, no futuro, ser adaptada para o cinema ou a TV. Entretanto, quando foi confirmado que, de fato, o roteiro seria publicado, eu dei um total de zero fucks. Honestamente, nem sei bem o porquê. Mas, se bem me lembro, por muito tempo acreditei que retomar a história do menino que sobreviveu era uma grande bobagem e que, por mais que eu desejasse muito um novo livro, eu tinha quase certeza de que não era uma boa ideia. Talvez tenha sido este o espírito que me invadiu durante o lançamento de The Cursed Child. Ou talvez eu só estivesse muito ocupada (e estava mesmo).

Só que é claro que não demorou muito para todas as minhas timelines estarem repletas de gente lendo (e comentando e fotografando) o livro (talvez eu tenha um excesso de amigos potterheads) e dois sentimentos me invadiram: a inveja (pô, eu também quero ler) e o medo besta de tomar spoiler. Foi daí que eu decidi que queria ler também.

Eu não esperava sentir aquilo de novo. Não tinha capa da Mary GrandPre, nem Harry Potter escrito em metálico com um raiozinho no P, nem mesmo o cheiro de livro novo porque era ebook. Mas a sensação era a mesmíssima de quando eu abri pela primeira vez cada um dos outros livros (menos o primeiro, claro), ansiosa por uma nova aventura em Hogwarts, ansiosa para rever os personagens como se fossem velhos amigos, ansiosa para conhecer as novas personalidades malucas que J.K. Rowling nos introduziria. Por algum tempo, cheguei a acreditar que eu estava de fato lendo mais um livro do Harry, o oitavo livro da série. Demorou, mas chegou. E era incrível. Até não ser mais.

Passada a empolgação inicial, percebi que não era como estar lendo mais um livro do Harry. A ansiedade inicial foi a mesma, sim, e que bom que foi, mas o resto da experiência foi simplesmente diferente. Talvez fosse para ser mesmo. São formatos diferentes, os personagens principais estão num momento completamente novo – e agora bem distante do meu – e, bem, eu também mudei. Mas eu não deixo de estar ligeiramente decepcionada.

Eu sempre achei Harry Potter muito próximo de impecável e talvez parte do choque seja eu ter achado esta nova história um pouco mais distante da perfeição, quer dizer, achei que tinha defeitos demais (prum Harry Potter). Concordo com muito o que a Renatawashu falou sobre o livro aqui (atenção: contém spoilers), inclusive.

(Talvez aqui tenha spoilers, pule os próximos dois parágrafos se você costuma achar que tudo é spoiler.)

Em muitos momentos, me senti lendo um fanfic ruim mesmo, com algumas ideias meio absurdas, uns ships meio errados e desnecessários, uns personagens fazendo coisas que nunca imaginei que eles fariam, principalmente quando a história vai para as realidades alternativas (WTF o Cedrico?!). Além disso, o livro é muito decepcionante em termos de representatividade. Muito mais do que nos outros, a história é absolutamente centrada nos personagens masculinos (Albus e Scorpius e Harry, principalmente, mas também Draco), ainda que haja personagens mulheres fortes e maravilhosas e importantes e que mereciam muito mais destaque (Mione, Rose, Ginny, McGonagal e até mesmo Delphi). E J.K., novamente, perdeu a chance de inserir um casal homoafetivo na trama. (Por favor, escrevam fanfics de Albuscorpius ou sei lá o shipname e me mandem.)

Só que J.K. (e os outros dois caras, né?) também acertou bastante. Alguns diálogos são absolutamente ótimos e pelo menos Harry segue sendo o personagem complexo e maravilhoso que eu sempre amei e Draco, gente, o Draco finalmente teve “o final” que eu sempre quis (obrigada, Jo, sua linda). Delphi também é uma personagem incrível e uma adição fantástica para o universo potterhead, ainda que eu tenha achado a história de sua origem bastante ridícula (desculpa, Jo).

No geral, achei um bom livro, uma boa história. Mexeu muito comigo, me fez chorar horrores e destruiu meu coração a cada personagem que aparecia ou era citado (gente, o Snape e a Lily e o Neville e a tia Petúnia 💔). Só que eu esperava mais. Talvez porque eu, secretamente, esperava por esta história desde 2008.

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