As propriedades terapêuticas da Grande Limpeza de Final de Ano

Todo final de ciclo, eu gosto de fazer um grande limpa/destralhamento/declutter/a-palavra-que-você-preferir. Faço isso porque me ajuda a lidar com os fins e os encerramentos, e também porque me ajuda a me preparar para os inícios dos novos ciclos, abrindo espaço físico, digital e até mesmo metafísico para as coisas novas.

Isso quer dizer, por exemplo, que todo final de semestre da faculdade, eu gostava de reunir todo o meu material, anotações, listas de exercícios, provas e trabalhos, separando o que eu queria ou precisava manter daquilo que eu queria ou podia me desfazer. Toda mudança de estação, eu tiro tudo de dentro do meu guarda-roupa e só devolvo aquilo que eu usei no último ano, doando o resto. Todo final de ano, faço diversos destralhes ao longo de novembro e dezembro. É a minha tradição particular de ano novo.

A cada ano, “A Grande Limpeza de Final de Ano” é um pouquinho diferente, dependendo do momento em que estou na minha vida e tal. Nos últimos anos, elas foram super complicadas porque envolviam final de período na faculdade e não só uma, como duas casas. Paralelamente a provas e trabalhos finais, eu ia fazendo meus destralhes no apartamento onde eu morava sozinha, preparando tudo não só para um novo ano e um novo período da graduação, mas também para os dois meses e meio que o apezinho receberia poucas visitas minhas. Quando eu finalmente saía de férias e voltava “de mala e cuia” para a casa dos meus pais (geralmente depois do dia 15 de dezembro), era a hora de fazer os outros tantos declutters no meu quarto joaquinense (nesta altura do ano completamente abandonado pelas poucas vindas para a casa).

Não precisa fazer a Emily Gilmore depois de ler o livro da Marie Kondo
Não precisa fazer a Emily Gilmore depois de ler o livro da Marie Kondo, mas um declutterzinho é sempre bem vindo.

No ano passado, minha Grande Limpeza etc. não aconteceu bem do jeito que eu queria. 2015 foi uma grande confusão na minha vida e absolutamente nada saiu como planejado ou esperado (para o bem e para o mal). A vida me atropelou e, quando dei por mim, vários ciclos estavam se encerrando sem que eu tivesse tido a chance de respirar fundo e me organizar. Primeiro foi o TCC, depois o estágio e a graduação como um todo. Colei grau ainda meio sem processar a informação de que eu estava mesmo me formando porque eu havia me preparado para me formar só no ano seguinte. Pela primeira vez em muitos anos, ignorei a minha própria tradição, tomei só as providências cabíveis e urgentes, como fazer minhas malas para vir pra casa, e me dei duas semanas de folga. Em janeiro, voltei para São Carlos para tratar do que ficou pendente, o que incluía o meu último grande declutter por lá, aquele que a gente faz quando tá organizando nossa mudança.

Para mim, organizar a bagunça física – e especialmente se livrar da tralha – sempre teve um grande impacto psicológico. Por isso mesmo, estas limpezas de final de ciclo são tão importantes para mim. Além disso, elas sempre fazem parte de algo maior, de todo um conjunto de atividades que me ajudam a lidar com a vida, o universo e tudo o mais, mas principalmente com a ansiedade. Não ter conseguido fazer nada disso no ano passado, com tanta coisa acontecendo, foi especialmente estressante e acredito ter afetado boa parte do meu 2016.

Quando este ano começou, eu estava completamente perdida. Tudo havia acabado, mas nada tinha tido um encerramento apropriado na minha cabeça. Eu ainda tinha pendências em São Carlos e toda uma mudança de cidade para organizar, o que me ajudou um pouco. Pude me despedir adequadamente de algumas pessoas, mas não de todas. Buscar meu diploma foi a coisa mais simultaneamente dolorosa e deliciosa que já fiz, mas lidar com a papelada, os arquivos digitais e todas as outras coisas que eu trouxe de São Carlos e da graduação foi catártico.

Acho que eu nunca havia percebido de fato como alguns costumes e rituais aparentemente bobos podem ser importantes para mim. Foi por isso que este ano eu decidi levar minha Grande Limpeza de Final de Ano a sério.

O final de 2016 não representa nenhum fim de ciclo importante na minha vida. Esse ano não tem entrega de TCC, último dia de aula, último dia do estágio ou colação de grau. Nada de grandioso aconteceu na minha vida, com exceção dos resquícios dos encerramentos do ano passado (e talvez de grandes problemas). 2016 foi, honestamente, um ano horrível, um dos piores da minha vida e é justamente por isso que quero aproveitar a oportunidade da mudança de calendário para deixar este ano e todas as suas bad vibes para trás. Ao contrário do ano passado, desta vez tenho tido tempo para me planejar e, com isso, consigo vislumbrar um ano novo com mais significado e perspectivas melhores. (Eu sei que o futuro pode ser bastante imprevisível e que a gente não tem o controle de nada mas, para o bem da minha saúde mental, eu preciso de alguma estrutura, alguma organização, algum planejamento.) E também tenho tido tempo de fazer destralhes que eu considero importantes para mim e que vão abrir espaço para coisas novas, inclusive um 2017 muito melhor do que foi 2016. (Olha quem tá sendo otimista!)

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4 comentários sobre “As propriedades terapêuticas da Grande Limpeza de Final de Ano

  1. Oi, Dani!

    Que delícia ler um post seu. 2016, pra mim, não foi um ano de grandes acontecimentos, meio que passou sem eu perceber.

    Tenho certeza que vai te fazer bem essa passagem de ano, faz bem pra todo mundo! Boa sorte com seu declutter :D

    Beijos!

  2. […] A Dani falou recentemente sobre o destralhamento de fim de ano, que nada mais é do que uma grande limpeza que ela faz antes de iniciar um novo ciclo em sua vida, algo que pra ela já se tornou uma tradição. Aquele texto conversou tão diretamente comigo que me inspirou a escrever um texto que, embora ele fale mais da minha relação com as coisas que eu tenho do que da minha necessidade em deixar várias dessas coisas irem embora, essa história só começou porque eu me deparei com o texto da Dani no Bloglovin e não sosseguei enquanto não abri uma aba pra ler. Naquela época, a ideia de eventualmente ter que sair de Brasília era o que me assustava porque eu não queria deixar minhas coisas para trás. Eu sofria só de imaginar abandonar meus sapatos ou então todos os meus livros – o tipo de coisa que não faz o menor sentido. Só que hoje, enquanto penso em tudo isso e escrevo pra quem quer que esteja lendo aí do outro lado, a sensação de ter tanto é muito diferente, quase como se eu estivesse trilhando meu caminho rumo ao acumuladores e logo, logo estivesse soterrada por todas essas coisas que não me deixam em paz. Fora isso, tem essa sensação absurda (mas muito real) de que quanto mais eu tenho, menos chances eu tenho de bater asas e voar pra onde quer que seja. […]

  3. Miga, meu 2016 foi brutal e, sim, deixei muitas das coisas que eu considero importantes pra mim (como esses destralhamento ocasional) de lado, porque precisava lidar comigo mesma. Mal sabia eu que não tinha como lidar comigo mesma quando tudo à minha volta tá desmoronando. Então te entendo e espero, de coração, que 2017 traga muitas bençãos para todos nós, porque de chateação e tristeza a gente já tá assoberbado.

    Um beijinho!

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