Uma retrospectiva pessoal e capenga

Eu pretendia ter escrito este post na terça-feira, meu aniversário. Fazer aniversário no finalzinho de dezembro faz com que esta seja uma data especialmente propícia para fazer uma espécie de retrospectiva pessoal – uma análise particular do ano que está chegando ao fim.

Só que, por mais que a vontade de escrever este post exista e seja tão real que é quase uma necessidade, não é algo fácil. Honestamente, para mim, há muito pouco de bom para se recordar de 2016, especialmente posto ao lado das coisas ruins. Além disso, o simples vislumbre do final deste ano me enche duma angústia que até então eu não conhecia tão bem. Nunca senti tamanha ansiedade diante da passagem desenfreada do tempo, da constatação do fato óbvio de que é impossível pará-lo e, principalmente, voltar atrás.

Fiz 26 anos esta semana e, pela primeira vez na minha vida, minha idade me assusta. Lembro de ter sentido medo ao fazer 19, mas também me lembro que era um medo bom, um frio na barriga gostoso de quem esperava grandes coisas. Boas coisas. O medo de fazer 26 anos não tem nada a ver com aquele. Não é a ansiedade boa de quem mal pode esperar pelo que vem em seguida. É a angústia de alguém que se sente velha demais para estar onde se está, mas não vê como as coisas poderiam ser diferentes. É a angústia de se olhar para trás e não estar exatamente satisfeita ou orgulhosa da jornada até aqui, ainda que racionalmente enxergue muitas razões para se sentir bem, sim. É a angústia de perceber-se totalmente inserida num mundo adulto do qual não se sente pertencente, nem sabe se quer realmente o sentir.

Esta crise específica foi muito motivada por um ano ruim, sem grandes realizações. Depois de buscar meu diploma e fazer meu CREA, minha vida profissional-acadêmica se resumiu a uma enfadonha, cansativa e frustrante (muito frustrante) rotina de busca por emprego, que segue sem grandes perspectivas e da qual eu sequer tenho energia para escrever/falar sobre, então sigamos.

Voltar a morar com meus pais é, sem dúvidas, outra questão importante neste sentido. Por mais que esta seja definitivamente a decisão mais acertada do ano e que ela tenha me permitido passar mais tempo com algumas das minhas pessoas (humanas e canina) mais amadas, é muito difícil não sentir-se mal em ser um adulto não apenas que mora com os pais, mas também que depende deles financeiramente.

Junto a esta crise talvez um tanto clichê, há a questão da saúde mental. Considerei procurar um psicólogo/terapeuta/profissional, mas minhas opções são muito limitadas (e caras) aqui em São Joaquim. Tenho tentando controlar a ansiedade de todas as formas possíveis (e viáveis), inclusive aquelas que sempre funcionaram bem no passado, mas tem produzido pouco ou nenhum efeito hoje. Não sei até que ponto a ansiedade tem contribuído para minha crise-dos-26-anos ou a crise tem piorado a ansiedade, mas está claro que as duas coisas estão relacionadas.

Minha ansiedade, inclusive, teve muitos agravantes este ano, e agravou outros tantos problemas. Esta onda conservadora em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, me assusta muito. Acompanhar as notícias tem me descaralhado a cabeça, mas me sinto obrigada a me informar. Ontem mesmo, não consegui dormir depois de assistir à Retrospectiva na Globo. Também é recorrente eu perder o sono pensando nos problemas e tragédias alheias, principalmente (claro) daquelas pessoas mais próximas de mim.

Meus relacionamentos pessoais também foram muito abalados este ano. Estamos todos muito vulneráveis, machucados e assustados, cada um com suas próprias questões, e tem sido difícil lidar com tudo isso. Briguei muito com as minhas melhores amigas. Me afastei bastante de todo mundo. Cheguei a terminar com meu namorado. Por outro lado, foi justamente nos meus pais, no Lu, na Tety e na Lari que encontrei apoio e força para sobreviver a 2016 e acredito que eles puderam encontrar apoio e força em mim também. Termino o ano com o coração um pouco menos apertado, com a certeza de que estes laços foram abalados, porém fortalecidos em 2016.

Também encontrei aqui, na internet, como sempre, uma rede de apoio muito especial, principalmente agora em dezembro, com a morte da Íris. Toquei no assunto superficialmente nas redes sociais e escrevi mais sobre isso na newsletter, mas ainda tem sido muito difícil falar sobre o assunto, por isso não escrevi nada a respeito no blog. Íris foi uma parte muito importante da minha vida, foi uma grande companheira especialmente neste ano difícil e dói demais lembrar que ela não está mais aqui.


Eu disse na última edição da newsletter que tenho evitado escrever na internet porque tudo o que produzo tem saído com essa vibe pesada – porque, bem, a vida anda pesada. Cheguei a pensar em não enviar a última cartinha e em não publicar este último post do ano, mas eu sinto que precisava muito tirar estas coisas todas de mim e que estes eram os canais para fazer isso. Recebi um retorno muito carinhoso depois do meu último e-mail e isso me ajudou demais, então acredito ter tomado uma boa decisão, pelo menos com relação à newsletter. Quanto ao blog, acredito que ele é uma parte importante de mim e que eventualmente não vai ter jeito, a negatividade em mim vai se refletir nos posts.

Então, peço perdão pela bad vibe deste último post do ano, mas eu não poderia deixar de publicá-lo e de publicá-lo assim. Estou me permitindo não fazer a Pollyanna. Me permitindo chorar o que tenho para chorar, viver meu luto e abraçar minha tristeza como o sentimento válido e necessário que ela é. Estou me dando o direito de lamber minhas feridas e lidar com a minha dor do jeito que me couber.


Aproveitando que este é o último post do ano, gostaria de agradecer a todos os leitores do blog pelas palavras de apoio, pelos comentários carinhosos e pelos gifs de animaizinhos. Sem vocês 2016 teria sido muito mais difícil, então muito obrigada. ❤

Espero que 2017 seja um bom ano para todos nós. Que tenhamos força, sabedoria e malemolência (sempre importante) para lidar com as pedras no caminho. E que elas sejam em menor quantidade, né? Pelamordadeusa.


P.S.: as imagens deste post são do filme Divertida Mente.

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5 comentários sobre “Uma retrospectiva pessoal e capenga

  1. Oi Dani!

    Espero que o ano novo traga muitas coisas boas para você e que no ano que vem você possa voltar aqui para fazer a retrospectiva 2017 e ver como tudo mudou pra melhor! :)

  2. Ô, Dani, sempre gostei dos teus posts e me identifiquei muito com essa bad. Praticamente cresci e madureci lendo o Formol desde os tempos áureos da blogosfera (2007-2009). Não é fácil ser adulta e me sinto exatamente como você. O segredo talvez seja viver um dia de cada vez.

    Bjs e tudo vai ficar bem!

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