Tudo novo de novo

Eu tenho pensado muito na nossa pegada virtual – se é que essa expressão existe.

Começou alguns anos atrás quando eu descobri o Timehop. E ganhou força, mais tarde, quando surgiu o equivalente do Facebook. Basicamente, o que estas ferramentas fazem é nos lembrar, diariamente, daquilo que publicamos em determinados lugares neste mesmo dia um, dois, quantos anos atrás for possível.

No geral, eu acho isso muito interessante. Usando o Timehop há alguns anos já, percebi alguns padrões que nunca tinha notado, coisas que eu costumo fazer, ou que costumam me acontecer sempre na mesma época do ano, quando não no mesmo dia. Já me deparei com coincidências curiosas, me lembrei de coisas das quais talvez eu jamais me recordaria e revisitei memórias que trouxeram um quentinho no coração. Mas também, é claro, fui confrontada com coisas nem tão agradáveis.

Acompanho, pelo meu Timehop, mais de dez anos de publicações no Twitter, Facebook e Instagram. É tempo pra caralho. Essas publicações vão desde quando eu ainda estava na escola, passando pelo vestibular, toda minha graduação, minha formatura, a pós e a vida de desempregada-nem-tão-recém-formada-assim. É claro que, dentre essas publicações, tem muita coisa que eu não postaria hoje por inúmeras razões. Eu mudei – diria até mesmo que melhorei em muitos aspectos – e muitos destes posts não condizem com quem eu sou hoje. E isso vai desde questões bobas como a má qualidade de uma foto ou um erro de digitação até coisas mais sérias. Eventualmente, eu me deparo com posts que me envergonham, não por serem bobos ou mal feitos, mas por serem, em algum grau, machistas, LGBTQfóbicos, racistas, gordofóbicos, capacitistas ou simplesmente escrotos pra caralho. Foi aí que eu comecei a pensar na minha pegada virtual.

Eu sei que eu não sou mais aquela pessoa. Eu sei que a gente tá em constante processo de desconstrução – se a gente assim quiser, é claro – e que eu ainda estou aprendendo e melhorando e sou passível de falar muita merda e me arrepender depois. Não que eu fosse uma pessoa horrível cheia de discurso de ódio, mas, infelizmente, eu já reproduzi falas e expressões destes discursos. Só que, hoje, eu sei que aquele post x é problemático, é ofensivo ou é um desserviço. Então por que mantê-lo na internet?

Eu comecei a deletar minhas publicações antigas por aí, pelas coisas mais problemáticas e fui, aos poucos, estendendo esta espécie de “destralhe virtual” para publicações talvez mais inocentes, mas que tragam expressões que hoje eu sei serem ofensivas, ou sejam agressivas ou negativas de alguma forma. Basicamente tudo aquilo que eu não publicaria hoje e que me traz algum constrangimento, eu tenho deletado – ou editado, se for possível melhorar. Eu sei que muitos destes posts são bem antigos e difíceis de acessar, mas ainda assim, eles estavam ali, engrossando o chorume, ressonando com as vozes odiosas, contribuindo para a imensidão de conteúdo agressivo e negativo que já existe na internet.

Eu tenho feito um esforço real para ser consciente em relação ao que eu publico, ao que eu jogo no mundo por meio da web. Então, acho importante ser consciente em relação ao que eu já postei também.

Não é questão de negar o passado, de não assumir as merdas que eu já disse e fingir que sempre fui uma rainha do feminismo interseccional (spoiler alert: ninguém é). Não é sobre negar a pessoa que fui, mas sobre tornar a minha pegada virtual mais leve e mais do bem. É sobre contribuir com uma internet melhor, a começar do meu próprio feed, do conteúdo sobre o qual eu tenho algum controle.

Este processo já tem alguns anos e coincidiu com uma espécie de Facebookcídio em que eu não deletei minha conta, mas deletei praticamente tudo o que eu já havia postado e compartilhado por lá. Talvez eu fale disso melhor em um outro post, se vocês quiserem.

É claro que neste processo, eu comecei a repensar o blog e o conteúdo que eu publiquei aqui nos últimos anos e fiquei meio perdida. Comecei revisando algumas publicações antigas, mas me senti sobrecarregada. São 11 anos de conteúdo e eu levaria muito tempo para revisar tudo. Além disso, algumas publicações me enchiam de dúvidas, entre mantê-las ou não, editá-las ou não. Para mim, não fazia sentido modificar textos de dez anos atrás a partir da perspectiva de hoje, mas eu também não me sentia confortável em deixá-los aqui da forma como estavam. Acabei optando por trancar o blog enquanto eu não conseguia decidir o que fazer.

Há tempos, quero reabrir o blog, mas só agora me senti preparada para isso. Tomei a decisão de ocultar todos os posts antigos e recomeçar quase do zero. Eu sei que grande parte do conteúdo daqui já foi reproduzido internet afora, seja por agregadores de feed, sejam por sites que reproduzem o que a gente publica sem nossa autorização (e, muitas vezes, sem créditos). Eu sei que eu não tenho total controle sobre o que já joguei no mundo, mas eu vou assumir o controle que tenho da melhor forma possível. Posso não conseguir fazer nada sobre meu conteúdo que foi reproduzido por aí, mas aqui no Sem Formol, aqui neste espaço, só vai permanecer o que eu quero, e da forma como eu quero.

Muito provavelmente, eu irei resgatar publicações antigas das quais eu gosto muito, revisá-las e talvez até mesmo reescrevê-las e postá-las novamente, mas isso vai acontecer da forma mais espontânea possível. Eu senti falta do mundo blogueiro enquanto estive ausente, mas também me senti, de certa forma, livre. Mesmo com um blog pequeno, com poucos seguidores, eu sempre senti uma certa pressão (mais minha do que externa) de estar sempre postando e de cumprir um punhado de regras que nem fazem sentido. Então, nesse “renascimento” do Sem Formol, eu quero voltar às raízes blogueiras e fazer com que esse espaço seja meu e seja bom para mim. Não me pressionarei para criar nenhum tipo de conteúdo, nem para cumprir uma periodicidade específica.

O nome disso é slow blogging e é algo que eu tenho tentado trazer para a minha vida internética toda. A Nátaly Neri explicou superbem o que é isso e porque isso é importante neste vídeo aqui e, se você prefere ler, a Maki fez um post ótimo sobre o assunto no Desancorando.

Neste sentido, acho relevante dizer também que eu deletei a página do blog no Facebook. Sei que algumas pessoas não vão gostar e que tinha gente que acompanhava as novidades do blog por lá, mas eu peço que sejam compreensivos e usem nossos outros canais. Administrar uma fanpage é trabalhoso e traz pouco retorno pois pouquíssimas pessoas recebem o conteúdo das páginas que não pagam por impulsionamento.

Vocês podem acompanhar o blog através de qualquer agregador de feed e do Bloglovin’. Ainda estou mantendo o Twitter do blog, mas ainda não sei o que quero fazer em relação a ele e queria pedir a opinião de vocês. Deletei os tweets antigos todos e estou em dúvida entre excluir a conta ou continuar usando-a para compartilhar os novos posts que virão. O que vocês acham?

Da mesma forma, fiquem à vontade para dar sua opinião nos comentários ou entrar em contato comigo. Meu Twitter pessoal é @guedss e o meu Instagram também.

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8 comentários

  1. Oi, tudo bem?
    Li seu texto no momento imediato após fazer quase a mesma coisa que você fez no blog: fui lá no meu blog de 9 anos de existência e arquivei todo o conteúdo que não fosse literário. Só deixei resenhas e alguns textos de que não me arrependo e me sinto tão, mas TÃO aliviada com isso, sabe. Acredito muito que precisamos contribuir para uma internet melhor, não apenas esperar que ela se torne magicamente maravilhosa do nada. E fazer uma curadoria do que publicamos é importante demais nesse processo.

    Acompanho seu blog há anos e fico realmente feliz que cê tenha tomado essa decisão de um começo quase do zero – e genuinamente surpresa por eu ter feito quase a mesma coisa quase no mesmo momento. Acho que isso pode ser um indício de que finalmente as pessoas estão em sintonia em algo: depende de nós fazer uma internet melhor.

    Beijo!

    1. Miga, que coincidência! Eu torço para ser isso mesmo, para estarmos todos repensando nossa relação com a internet e o que fazemos com isso aqui (porque tá difícil, né?).

      Obrigada pelo comentário e um grande abraço!

  2. Tô tão feliz com essa notícia de você voltar, Dani! Senti muita falta do seu blog e dos seus textos, mas entendo completamente a sua posição, não só sobre se sentir meio livre enquanto estava sem blog, mas também sobre isso que você chamou de pegada virtual. O timehop me assusta às vezes, só que descobri uma coisa diferente de você, eu vi o quanto eu estava mal em certas épocas da minha vida e continuei seguindo como se tudo fosse completamente normal.
    Li o post da Maki e estou ouvindo o vídeo da Nátaly agora. E acabei de perceber que eu conversei sobre slow blogging com o meu psiquiatra hoje sem nem mesmo saber do que a gente tava falando. Eu tô tentando voltar com o blog ainda essa semana, porque vou participar de um evento no sábado e não queria entregar cartões de visita sem as coisas estarem prontas. A nossa conversa acabou indo pro lado que você comentou, sou eu que me cobro o tempo todo e me sinto culpada por não conseguir acompanhar o mesmo ritmo de outras pessoas. Talvez meu blog não vai estar pronto como eu queria, ou talvez eu não vá conseguir criar tanto quanto eu gostaria. Mas é importante ser gentil com a gente mesmo e entender que somos pessoas diferentes e temos ritmos diferentes para tudo na vida.

  3. Dani, fico muito contente por você estar dando esse passo. Sei o quanto você ama escrever, e eu sinto falta dos seus textos <3
    O que importa é você conseguir estar bem com o conteúdo, não leve as críticas (se tiver) para o pessoal, quem tem que se sentir bem com o seu blog é você!
    Beijoo!

  4. Mas que que bom te ver aqui de novo <3.

    Acho que a essa altura da internet ninguém tem uma pegada virtual pequena, mas eu nunca tinha parado para pensar nisso, talvez por postar pouca coisa. Mesmo assim, já apaguei post antigo que apareceu para mim no memories do Facebook, por achar desagradável. Não era nem tão inadequado, era mais bobagem de adolescente.

    Sei o quanto o blog é importante para vc, tô feliz de ele estar de volta! Por você e por mim, que já li o Sem Formol inteiro mais de uma vez. Faz tudo do seu ritmo, do seu jeito, que eu tenho certeza que vai ser ótimo ;)

    Te amo mt!

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